quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

FIm de semestre e futuro

Gente, obrigado pelo bom semestre.
Olha, temos agora até abril para desenvolver os textos de vocês.
Vou ler e indicar o que será preciso.

Me enviem por o texto em word e coloquem aqui no blog o texto de vocês para que todos leiam

Ficamos ao fim Andreia, Roustang, Edvaldo e Iano.

Boas férias e estamos em contato.
abs.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

UMA VISÃO BAKHTINIANA DE HIPÓCRATES: Do Céu a Terra


Resumo/Abstract


Este texto se propõe a estudar o conceito de grotesco de Bakhtin sobre a obra de Rabelais do corpo humano nos tratados de Hipócrates. Objetiva traçar uma relação entre Rabelais e os Corpus Hippocraticum, comparando seus elementos e reforçando os conceitos de grotesco como anteriores a Idade Média.

Palavras-chave: grotesco; corpo humano; Bakhtin; Hipócrates
 

This text proposes to study Bakhtin's concept of grotesque on the work of Rabelais of the human body in the treatises of Hippocrates. It aims to outline a relationship between Rabelais and the Corpus Hippocraticum, comparing its elements and reinforcing the concepts of grotesque as before the Middle Ages.

Keywords: grotesque; human body; Bakhtin; Hippocrates

 
Introdução

Em 1532 surge o “Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel, Roi des Dipsodes, fils du grand géant Gargantua”[1] assinado por Alcofribas Nasier, um anagrama do francês François Rabelais, que não queria revelar o seu verdadeiro nome. Ao contar detalhes da vida de dois gigantes, Gargantua e seu filho Pantagruel, utiliza uma linguagem extravagante com diversos trocadilhos e um humor bem picante, na contramão ao cenário opressor religioso da Idade Média onde o corpo era coberto e dominado pelos tabus da igreja. Rabelais foi também médico, possuía um manuscrito grego de alguns textos de Hipócrates e atuou como editor[2] dos Aforismos e da Natureza do Homem de Hipócrates além de deixar várias notas sobre as traduções do latim em contrapartida com o original em grego. Rabelais mostra seu interesse não só pelo conteúdo técnico da medicina antiga, mas também pela forma da escrita crua e realista do corpo humano, fato que possivelmente influenciou o estilo grotesco de sua pentalogia de romances.

Neste artigo me proponho a estudar a origem do estilo grotesco por meio da comparação de trechos do Corpus Hippocraticum com trechos da análise que o Bakhtin faz das obras de Rabelais[3] trazendo as semelhanças encontradas tanto na forma de descrever o corpo quanto na liberdade de expressão do cotidiano do ser humano. Bakhtin (1895 – 1975 d.C), quatro décadas após Rabelais (1494 – 1553 d.C), dez décadas depois de Hipócrates (460 – 377 a.C.), mostra uma nova interpretação e define o realismo grotesco encontrado nessas obras como um modo literário.
Corpus Hippocraticum

O Corpus Hippocraticum é uma coleção de sessenta e seis tratados vinculados a Hipócrates e seus seguidores sobre temas relacionados ao corpo humano e práticas médicas dos séculos V e IV a.C. na Grécia Clássica. Interessante notar que apesar de Hipócrates falar o dialeto dórico comum em Cós, os tratados foram escritos em jônico, provavelmente com o objetivo de fazer seus estudos transpassarem as fronteiras de sua cidade, sabendo-se o quão amplamente era difundida a poesia grega arcaica, quase toda em jônico [4]. Esta obra com mais de dois mil anos hoje é objeto de estudos, leituras e releituras em diversos campos do conhecimento que não apenas na medicina onde originalmente assumiu um destaque especial.

Não podemos deixar de notar elementos do realismo grotesco nos tratados hipocráticos e a semelhança nas descrições da imagem do corpo humano com a obra de Rabelais. Para tanto serão analisados trechos dos tratados “A Antiga Medicina” e “Da Natureza do Homem”.

O manuscrito “A Antiga Medicina”, escrito por Hipócrates, cria uma imagem do corpo humano como uma cozinha. Dentro do corpo os alimentos são introduzidos, processados e eliminados. Considerando esta química interna pode-se descobrir muito sobre a condição do doente e de sua doença estudando o que é eliminado pelo corpo, o médico analisa o que entre e o que sai pra entender o que está dentro, por exemplo, o cheiro, a cor, a textura, a temperatura e o gosto das urinas e fezes podem mostrar o que está em desequilíbrio dentro do corpo e a partir daí ajustar a dieta para reestabelecer o equilíbrio perdido. Nos tratamento eram utilizados remédios para expulsar o que estava em excesso, a chamada catarse (kátharsis, em grego), uma purificação do corpo através da evacuação, da purgação.

Era uma constante luta para dominar os alimentos, suas quantidades, tempo de cozimento, suas misturas. Descreve-se o conceito de na medida (metron, em grego) como sendo a medida certa para cada paciente, nem de mais nem de menos, conforme o sentimento do corpo (áisthesis tôu sómatos, em grego). Existe uma busca por padrões. Se o corpo adoece é em decorrência de erros por não saber a técnica/arte da vida (atekhnía, em grego), a falta de técnica e por se afastar dos padrões de normalidade.

Trechos do manuscrito A Antiga Medicina (Mark; Jouanna) [5]

“3.3 And, to go still further back, I hold that not even the regimen and nourishment that the sick make use of today would have been discovered if it were sufficient for the human being to eat and drink the same things as an ox and a horse and all the animals other than man”

“3.4 For human beings endured much terrible suffering because of their strong and brutish regimen, consuming foods that were raw, unblended, and possessing great powers—suffering like that which they would experience from these foods today as well, falling into severe pains and diseases followed by a speedy death.”

“3.4 En effet, comme les gens éprouvaient bien des souffrances terribles par suite d'un régime fort et bestial, du fait qu'ils ingéraient des aliments crus, intempérés et dotés de qualities fortes”

“3.5 From wheat, by moistening, winnowing, grinding, sifting, kneading, and baking it they made bread, and from barley they made barley cake. And performing many other operations to prepare this nourishment, they boiled and baked and mixed and blended the strong and unblended things with the weaker, molding everything to the constitution and power of the human being; for they considered that if foods that are too strong are ingested, the human constitution will be unable to overcome them, and from these foods themselves will come suffering, diseases, and death, while from all those foods that the human constitution can overcome will come nourishment, growth, and health.”

 “7.2 A mes yeux, ce qui apparaît, c'est l'identité de la méthode, c'est l'unité et la similitude de la découverte.”

“8.3 Tous ces faits sont des preuves que l'art de la médecine proprement dit*, si l'on poursuit la recherche dans la même voie, peut être découvert tout entier.”

 “9.2 But in fact the error is no less, nor does it harm the human being less, if one administers food deficient in quantity and quality to what is needed: for the might of hunger penetrates forcefully into the human constitution to lame and weaken and kill. And many other ills, different from those arising from repletion but no less serious, also arise from depletion.”

“9.2 Mais, en réalité, la faute n'est pas moins grande …”

 “9.4 And I would strongly praise this doctor, the one who makes only small errors; perfect accuracy is rarely to be seen. For I think that most doctors are in the same situation as bad helmsmen. These people, when they err while steering in a calm sea, are not revealed; but when a great storm and a driving wind takes hold of them, it is manifest to all that they have lost their ship through ignorance and error.”

O tratado “Da Natureza do Homem” descreve as características dos doentes, suas doenças, bem como procedimentos de tratamento, e coloca que a causa das doenças está no desequilíbrio dos quatro humores (sangue, fleuma, bile amarela e bile escura) que constituem o corpo humano refutando a crença da época de que as doenças eram oriundas dos deuses. Os métodos de tratamento identificavam o humor em excesso e eliminavam parte desse humor, por exemplo, retirava-se sangue, através da sangria, até o corpo voltar ao seu equilíbrio original, consequentemente saudável. A imagem do corpo era como um sistema de vias onde os fluídos movimentavam-se.

“A tradução do texto procurou ser o mais fiel possível. O estilo duro e visceralmente anti-literário dos tratos do Corpus Hippocraticum foi observado. Este não é (e nunca foi) um texto com preocupações estéticas, como parece ser o de Platão, trata-se de um texto norteado por um novo conceito que as Escolas Médicas de Cós e Cnido trazem a essa cultura que mutatis mutandis ainda é a nossa: a verdade pragmática (não ideal como a Socrática), nem somente comprovável (como a de Empédocles ou a de Anaxágoras), mas já comprovada, pretensamente abnuente de dogmas, que necessitava de uma expressão divulgadora em nome de um altruísmo ainda pouco conhecido, capaz de, qual em Eurípedes, unir a humanidade, e não apenas os povos.”(Cairus) [6]

Trechos do manuscrito Da Natureza do Homem (Cairus) [7]

 “3-Por outro lado, se o calor e o frio, e o seco e o húmido não se interrelacionarem com moderação e em igualdade, mas um predominar sobre o outro, o mais forte sobre o mais fraco, não ocorrerá a gênese.”

“4-O homem adoece quando há falta ou excesso de um desses humores ... o lugar no qual ele transborda, ultrapassando a medida causa dor e sofrimento. E quando um desses humores flui para fora do corpo mais do que permite a sua superabundância, a evacuação causa sofrimento.”

“5-Se deres a um homem um remédio que remova fleuma, ele vomita fleuma, e se lhes deres um remédio que remova bile, ele vomita bile ... e se ferires uma parte qualquer do próprio corpo, de sorte a produzir uma chaga, dela escorrerá sangue.”

“6-E quem afirma que o homem é sangue, faz uso da mesma opinião: vendo os homens serem degolados e o sangue fluir do corpo, criam a opinião de que este humor é o princípio vital do homem ... ... e nos homens degolados, primeiro escorre o sangue mais quente e mais vermelho, depois escorre o mais fleumático e mais bilioso.”

“12-Para os que expelem muito pus sem estarem com febre, para aqueles os quais a urina está muito carregada de pus sem haver dor, e também para aqueles entre os quais os excrementos são cronicamente ensanguentados como na disenteria, ... as doenças surgem da mesma causa. ... são rapazotes trabalhadores; mas, depois livres das tribulações, tornam-se carnudos com uma carne mole e muito diferente da anterior, e tem o corpo muito dividido entre o que era antes e o que se tornou, de forma a não haver mais similitude”
O Grotesco de Bakhtin em Hipócrates

Em seu livro[8] Bakhtin identifica na obra de Rabelais princípios da “vida material e corporal: imagens do corpo, da bebida, da comida, da satisfação e necessidades naturais” e atribui a essas imagens, conceitos e concepção estética, o nome de realismo grotesco. Como destaca Bakhtin “O corpo e a vida corporal adquirem simultaneamente um caráter cósmico e universal” parte integrante do mundo e como característica principal o seu rebaixamento, “isto é, a transferência ao plano material e corporal, o da terra e do corpo na sua indissolúvel unidade, de tudo que é elevado, espiritual, ideal e abstrato”. Assim como Hipócrates que rebaixou as causas das doenças do plano divino para o plano terrestre, Rabelais rebaixa o corpo do céu a terra, “transferindo cerimonias e ritos elevados ao plano material e corporal”

Para Rabelais, como nos tratados hipocráticos, o alto e o baixo, também  no aspecto cósmico já que o material e o cosmos é uma unidade, estão relacionados a posição no corpo humano, “o alto é representado pelo rosto (a cabeça), e o baixo pelos órgão genitais, o ventre e o traseiro”. Assim rebaixar é entrar em contato com o próprio corpo, entender suas necessidades, comer e eliminar. É a manutenção da própria vida. Diferente do conceito moderno de degradação, o realismo grotesco entende como um aspecto regenerador, quase que como um tratamento médico.

Por outro lado, temos o conceito egoísta, individualista que separa o corpo humano do corpo universal, do cosmos e da natureza, e aparecem os excessos, o desequilíbrio, a doença e a metamorfose (nasce, cresce,morre). O grotesco está ligado a todos os sentidos, aos humores hipocráticos, ao movimento do corpo, suas entradas e saídas, ao tempo.

Na Grécia antiga a medicina e seus tratamentos estavam intrinsecamente ligados às estações do ano, os humores que constituíam o corpo humano mantinham características similares às quatro estações. Assim como Bakhtin destaca que “a sucessão das estações, a semeadura, a concepção, a morte e o crescimento são os componentes dessa vida produtora” também Hipócrates descreve o ciclo natural das doenças típicas de cada estação do ano bem como hábitos e costumes dos povos de acordo com a região onde vivem, abrangendo também fenômenos sociais “e então as imagens grotescas, com sua atitude fundamental diante da sucessão das estações, com sua ambivalência, convertem-se no principal meio de expressão artística e ideológica do poderoso sentimento da história e da alternância histórica”.

Também em Rabelais, como nos tratados, as imagens grotescas conservam uma natureza original, diferenciam-se claramente das imagens da vida cotidiana contemporânea, preestabelecidas e perfeitas, as doenças e desagregações do corpo, os procedimentos de ingerir e vomitar, as sangrias, os coitos, a velhice e o parto, “com sua materialidade imediata continuam sendo os elementos fundamentais do sistema de imagens grotescas”, imagens estas contrárias as poéticas descrições contemporâneas (tanto da época Rabelais quanto da de Hipócrates) do corpo humano.

Também em oposição a composição divina do corpo, Hipócrates, estuda seus orifícios, sua conexão com a natureza, “coloca-se ênfase nas partes do corpo em que ele se abre para o mundo exterior, isto é, onde o mundo penetra nele ou dele sai ou ele mesmo sai para o mundo, através de orifícios, protuberâncias, ramificações e excrescências, tais como a boca aberta, os órgãos genitais, seios, falo, barriga e nariz” trazendo a incompletude do corpo como parte de um todo em evolução, da própria natureza.

Ainda sobre o rebaixamento do corpo encontra-se em Rabelais e também em Hipócrates uma certa equivalência entre características de alimentos e plantas e suas manifestações no corpo humano e seus humores. Como observado por Bakhtin, “o homem degusta o mundo, sente o gosto do mundo, o introduz no seu corpo, faz dele uma parte de si”, é nos simpósios que se manifesta, come, fala e se alimenta, observando-se que “uma ligação eterna uniu sempre a palavra e o banquete.” Conforme o tipo de alimento, o homem reage com maior ou menor liberdade. “Ele prefere o vinho ao azeite, símbolo da seriedade piedosa da quaresma.” “Símbolo da piedade e do temor de Deus. O vinho liberta do medo e da piedade. A verdade no vinho é uma verdade livre e sem medo.” E também Hipócrates fala sobre a embriaguez, destacado por Bakhtin a seguinte definição: “Acontece o mesmo na embriaguez: em seguida a um aumento súbito do sangue, as almas mudam com os pensamentos que elas contem, e os homens, esquecidos dos males presentes, aceitam a esperança de bens futuros.”

Por isso tanto na época de Hipócrates, quanto na de Rabelais, esse corpo nu e cru, imperfeito e incompleto, era visto de forma repugnante, monstruosa, escatológica e não poderia se encaixar jamais nas definições vigentes de beleza, nas descrições divinas, onde tudo que era excessivamente e demasiadamente humano deveria ser omitido, eliminado.
Projeções Futuras

A partir deste estudo surgem novas indagação que devem ser abordadas e aprofundadas. Ampliadas as referências bibliográficas com novos tratados hipocráticos, como “Ares, Aguas e Lugares” e os capítulo finas da“A Natuza do Homem” que não fazem parte da tradução do Cairus, porém são de extrema importância para o tema aqui estudado.

A exemplo da estética dos excessos, seguem algumas inquietações:

Como os excessos se relacionam com o normal nos tratados hipocráticos sob uma visão bakhtiniana?

É possível correlacionar a normalidade, a justa medida, o meio termo e a estética grotesca dos excessos? Qual é o conceito de normal e anormal, saúde e doença, do ponto de vista do grotesco e seus excessos ?

O corpo individual se equilibra com o corpo geral, social e político através do movimento entre extremos e meio termo ?

“O homem tem saúde precisamente quando esses humores são harmônicos em proporção, em propriedade e em quantidade, sobretudo quando são misturados. O homem adoece quando há falta ou excesso de um desses humores, ou quando ele se separa no corpo e não se une aos demais.” (Da Natureza do Homem - 4Litrre) (Cairus p.34) [9]

“O estado patológico passou a ser designado a partir do normal, através dos léxicogênicos hiper e hipo ... Contudo, nos séculos V e IV a.C., o princípio de Alcméon, ... do “nada em excesso” ganhou vulto através dos textos das escolas médica de Cnido e de Cos, Platão refere-se a esse princípio no Banquete (186c), no discurso do médico Erixímaco: “pois a medicina, para dize-lo resumidamente, é um conhecimento do que há de erótico no corpo, em relação à repleção e à vacuidade” (Cairus p.35)

 “A face política que apologiza o meio termo e a justa medida tem sua mais ilustre expressão em Solon ... O discurso de Nícias, no sexto livro da Guerra do Peloponeso, tem por característica a apologia da temperança. ... Assim, a sociedade é concebida como um corpo político, homólogo ao corpo humano” (Cairus p.35/36)

 “ Canguilhem lembra que “definir o anormal por meio do que é demais ou de menos é reconhecer o caráter normativo do estado dito ‘normal’” (1966 p.36). Se por um lado, na medicina hipocrática, o que se visa não é propriamente o normal (51), mas apenas ao saudável; por outro, seus tratados adotam muito claramente o verbo XXXX por princípio normatizador, estabelecendo, desta forma, um padrão de normalidade. Tal qual o da Medicina Antiga, os tratados humorais, oferecem copiosos subsídios para o estabelecimento definitivo de um vínculo antitético entre o desequilíbrio e o XXX em seu sentido mais clássico, o de “costume”.(Cairus p.37)
Considerações Finais

Mesmo não havendo o conceito formal de grotesco na época do Hipócrates existem elementos e experiência de grotesco em seus tratados. Considerando que Rabelais tinha grande conhecimento dos manuscritos gregos, traduziu e editou alguns dos tratados no mesmo ano (1532) em que publicou o primeiro volume de Pantagruel, podemos admitir uma relação entre suas obras.


Referências Bibliográficas


BAKHTIN, M. Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. SP: Hucitec, 2010.
Bolgar, R. R. Rabelais's Edition of the "Aphorisms" of Hippocrates The Modern Language Review, Vol. 35, No. 1 (Jan., 1940), pp. 62-66, Modern Humanities Research Association, http://www.jstor.org/stable/3717411

CAIRUS, HF. O Corpus Hippocraticum. In: CAIRUS, HF., and RIBEIRO JR., WA. Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença e da natureza do homem [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005. História e Saúde collection, pp. 25-38. ISBN 978-85-7541-375-3. Available from SciELO Books http://books.scielo.org.

Cerqueira Lima, Alexandre Carneiro. As Imagens de Corpo Grotesco durante a Carnavalização do Simposio e do Komos em Atenas no V século a.C., Phoinix, Rio de Janeiro, 1997

Demont, Paul. ABOUT PHILOSOPHY AND HUMOURAL MEDICINE, p271. HIPPOCRATES IN CONTEXT Papers read at the XIth International Hippocrates Colloquium University of Newcastle upon Tyne 27–31 August 2002. LEIDEN/BOSTON: BRILL, 2005

JOUANNA, JACQUES. Hippocrate de L´Ancienne Medecine - TEXTE ÉTABLI ET TRADUIT PAR.PARIS: LES BELLES LETTRES, 1990

JOUANNA, JACQUES. Hippocrate de La Nature de L´Homme - TEXTE ÉTABLI ET TRADUIT PAR.PARIS: LES BELLES LETTRES, 1990

KAYSER, W. O grotesco. São Paulo: Editora Perspectiva, 2013.

MARK, J. SCHIEFSKY. Hippocrates on Ancient Medicine  – Translated with introduction and commentary. LEIDEN/BOSTON: BRILL, 2005

MENINI, ROMAIN «L’accouchement de Gargamelle (Gargantua, vi) : Hippocrate et Galien cul par-dessus tête», Op. cit., revue des littératures et des arts [En ligne], « Agrégation Lettres 2018 », n° 17, automne 2017 , mis à jour le : 07/11/2017, URL : https://revues.univ-pau.fr/opcit/270.

RABELAIS, F. Gargântua e Pantagruel. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1991



[1] RABELAIS, F. – em português: Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, Rei dos Dipsodos, filho do Grande Gigante Gargântua – Ver Figura 1 – em Anexos
[2] Bolgar, R. R. Rabelais's Edition of the "Aphorisms" of Hippocrates, The Modern Language Review, 1940
[3] BAKHTIN, M. Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. SP: Hucitec, 2010
[4] CAIRUS, HF. O Corpus Hippocraticum, 2005
[5] JOUANNA, JACQUES. Hippocrate de L´Ancienne Medecine, 1990 e MARK, J. SCHIEFSKY. Hippocrates on Ancient Medicine,2005
[6] CAIRUS, HF. Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença e da natureza do homem, 2005, pg.41
[7] CAIRUS, HF. Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença e da natureza do homem, 2005, pg.39
[8] Os trechos entre aspas foram retirados de BAKHTIN, M. Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. SP: Hucitec, 2010
[9] CAIRUS, HF. O Corpus Hippocraticum, 2005

A glutonaria como elemento do grotesco em Gargantua
The gluttony as element of the grotesque in Gargantua

Edvaldo Carvalho
Aluno especial do curso de mestrado em Metafísica da Universidade de Brasília. E-mail: edvaldo.carvalho2001@gmail.com


Resumo
              Este artigo estuda a glutonaria como elemento conformador da estética grotesca em Gargantua, de François Rabelais. Usa-se glutonaria em vez de banquete porque aquele termo traduz com mais fidedignidade o universo das imagens relacionadas com o consumo de comidas e de bebidas retratado nessa obra, aproximando-a da ideia de grotesco. O grotesco se manifesta na figura física incomum, no comportamento, na linguagem e na relação de Gargantua, o herói do romance, com os alimentos. Rabelais usa o grotesco como recurso de incitação ao riso, visando a assegurar a comicidade de sua obra.

Palavras-chave: Gargantua, grotesco, estética, glutonaria, banquete, bebida, comida.

Abstract

              The article analyses the gluttony as a key element of the aesthetics of the grotesque in Gargantua, from François Rabelais. The word gluttony is used instead of banquet because it expresses the universe of images associated with the consumption of foods and drinks described in this work more accurately, approaching the idea of grotesque. The grotesque is shown on the unusual physical figure, the behavior, the language and the relationship between Gargantua, the main character of the novel, and food. Rabelais uses the grotesque as a resource to provoke laughter, aiming to ensure the humor of his work.

Keywords: Gargantua, grotesque, aesthetics, gluttony, banquet, drink, food.


Introdução
              François Rabelais legou à cultura ocidental o adjetivo pantagruélico, que expressa a ideia de abundância de comidas e bebidas, de banquetes fartos, nos quais os comensais se entregam aos prazeres do consumo desenfreado dos alimentos postos à mesa. Como um autor que satiriza costumes populares de seu tempo, retratados com marcantes traços caricaturais, Rabelais faz das recorrentes imagens relacionadas com banquetes um elemento de instigação ao riso, como recurso para cativar a atenção do leitor, fórmula explorada à exaustão nas obras Gargantua e Pantagruel, que narram as aventuras dos heróis cômicos, pai e filho, respectivamente. A comida e a bebida figuram em Gargantua como "elementos de comicidade", como recurso usado por Rabelais para cativar a atenção de um leitor afeito a leituras de comédias. Os tipos e situações incomuns que compõem o enredo de Gargantua mostram que Rabelais empenhou-se em produzir uma obra de entretenimento histriônico, recorrendo com esse propósito ao burlesco para assegurar o sucesso de seu intento. Os principais elementos de comicidade centram-se nos aspectos físicos e intelectuais, nos hábitos e na linguagem de Gargantua, que, em conjunto, formam uma obra de arte com elementos estéticos grotescos.
              Neste artigo, será estudada a glutonaria como elemento conformador do grotesco em Gargantua. Glutonaria contém aqui significado convergente com o de banquete, mas aquele termo aproxima com mais fidedignidade o universo das imagens relacionadas com o consumo de comidas e de bebidas da ideia de grotesco.

Análise literária de Gargantua
              Gargantua é um romance complexo. Com efeito, Rabelais recorre a uma gama de gêneros textuais, distribuídos em cinquenta e oitos capítulos, para narrar as aventuras da personagem que dá nome a sua obra. Há capítulos com conteúdo filosófico (IX e X), poético (II, LIV e LVII) retórico (XIX, XXXI, XL, XLVI e L) e, a maioria deles, narrativo das aventuras do protagonista. Pode-se identificar quatro partes bem distintas na narrativa: os dois primeiros capítulos apresentam ao leitor uma síntese do método e do estilo que Rabelais desenvolverá ao longo do texto, ora constituindo-o em prosa, ora em poesia. Embora seja uma obra de ficção, com acentuado apelo cômico, Rabelais a compõe como um tratado, mostrando grande erudição, com inúmeras referências a autores clássicos e coetâneos, fatos históricos, sítios geográficos e informações científicas, não raro, distorcendo o significado de fatos e ideias para aumentar a comicidade da narrativa. Os Capítulos III a XXIV narram o nascimento e os processos de formação e educação de Gargantua; os Capítulos XXV a LI abordam a guerra travada entre Grandgousier e Picrocolo, na qual Gargantua exerce papel decisivo no desfecho da contenda e na reestruturação política e social de seu país no pós-guerra; e, por fim, os Capítulos LII a LVIII apresentam um projeto de sociedade utópica, estruturada em torno de uma abadia, que sucederá à sociedade remanescente do conflito.
              A singularidade do enredo reside na figura excêntrica de Gargantua, um gigante, filho de um casal de gigantes que governa um reino imaginário, formado por Grandgousier, seu pai, e Gargamelle, sua mãe. Essa personagem colossal assegura a Rabelais a licença literária para compor uma narrativa pautada nos excessos. Tudo associado a Gargantua é hiperbólico. Os hábitos, as ações e a linguagem nonsense da personagem são os elementos constitutivos da comicidade da obra.
              No tocante à linguagem, Rabelais evoca os padrões de linguagem consagrados pelos comediantes gregos e romanos, aprimorados nas comédias populares da Idade Média e do Renascimento. Nesse sentido, enquanto a tragédia aborda temas que permeiam grandes questões da existência humana, usando uma linguagem sublime, que dignifica deuses e heróis em suas peripécias, nas vicissitudes da vida, a comédia explora os costumes das classes populares, os conflitos e exposições dos aspectos mais degradados da cultura, do comportamento e da vida de homens e mulheres comuns, privados de mecanismos de censura interna capazes de impor qualquer moderação no uso da linguagem. Falam o que vem à cabeça, expressando-se com as palavras mais chulas, inclusive sobre as situações comumente envoltas por interditos morais e sociais. Gargantua segue essa tradição da comedia clássica, usando uma linguagem desabrida, centrada em descrever escatologias passíveis de causar repugnâncias nos espíritos mais sensíveis. Rabelais usa, conforme assevera Geir Campos no texto de apresentação da obra, palavras semifeias, que não chegam a ser palavrões, "seriam palavrões a meio mastro, impropérios de salão ou quase." Esse modo grosseiro de expressão verbal compõe um estilo de linguagem de uso comum na Idade Média e no Renascimento, denominado por Bakhtin (1993, p. 15) de "linguagem familiar da praça pública", caracterizada pelo uso frequente de grosserias e de expressões e palavras injuriosas, que exerceu muita influência no estilo de Rabelais. Bakhtin tece a seguinte afirmação acerca desse tipo de linguagem:
A linguagem familiar converteu-se, de uma certa forma, em um reservatório onde se acumularam expressões verbais proibidas e eliminadas da comunicação oficial. Apesar de sua heterogeneidade original, essas palavras assimilaram a concepção carnavalesca do mundo, modificaram suas antigas funções, adquiriram um tom cômico gera e converteram-se, por assim dizer, nas centelhas da chama única do carnaval, convocada para renovar o mundo.
              As comédias costumam ser críticas mordazes a pessoas, instituições, costumes ou ideias. Configuram, nesse sentido, uma representação simbólica do escárnio nutrido pelo homem do povo, como sujeito desprovido de importância social, política e econômica em sua individualidade, contra pessoas, instituições ou valores representativos das classes dominantes de sua época. Será vã, entretanto, eventuais tentativas de o leitor descobrir qual o alvo predileto da crítica de Rabelais. Transitam no enredo governantes, religiosos, teólogos e pessoas comuns, mas não há no texto elementos para sustentar que estes sejam objeto da crítica. O final apologético da obra em defesa da paz, da ordem e da prosperidade em uma comunidade ideal, deixa transparecer que Rabelais é um homem pio, com grande apreço pela religião e por seus prelados, como era de fato, devido a sua formação religiosa, de médico caridoso e de frade franciscano.
              Igualmente, não há evidências históricas de que os tipos caricatos de Gargantua possam ser associados a governantes da época do autor. Parece haver no texto uma crítica velada a governantes predispostos a declarar a guerra por motivos fúteis, com resultados desastrosos para si e para seu povo, mas, caso haja, tal crítica torna-se quase imperceptível em meio às diversas situações inverossímeis do conflito, que afastam a possibilidade de conexão com a realidade histórica do Velho Mundo do século XVI. A obra é puramente ficcional, composta com o propósito de entreter e não induzir o leitor à reflexão, pois como adverte Rabelais: "Antes risos que prantos descrever // Sendo certo que rir é próprio do homem."
              Pode-se observar sensível crescimento espiritual de Gargantua à medida que sua formação intelectual se adensa, a ponto de a linguagem nonsense e as condutas histriônicas tão marcantes da personagem se esvaírem ao longo do texto, dando lugar a um conjunto de habilidades físicas, sociais, políticas e intelectuais que fazem de Gargantua uma liderança magnânima, dotada de recursos retóricos e de sabedoria política, enfim, um verdadeiro estadista. Desse modo, Rabelais parece tecer apologias a educação como prática essencial para transformação do indivíduo e da sociedade, pois, na comunidade ideal remanescente do pós-guerra, homens e mulheres eram "tão nobremente instruídos que não havia aquele nem aquela que não soubesse ler, escrever, cantar, toca instrumentos harmoniosos, falar cinco e seis línguas ou nelas compor tanto em carme como em oração solta." (Capítulo LVII)

O grotesco em Gargantua

              O grotesco é uma categoria estética, todavia, uma estética transgressora, que suplanta os restritos cânones da estética clássica, consolidada por Platão como expressão artística fundada na ideia de harmonia, proporção e esplendor, atributos que qualificam o belo (ECO, 2004, p, 48), ensejando assim perspectivas de concepção de novas expressões artísticas que privilegiam deformidades, assimetrias e imagens horrendas como elementos de composição da obra de arte.
              Segundo Bakhtin (1993, p. 28) o grotesco existe desde tempos imemoriais, em vários modos de manifestação artística, mas se consolidou como categoria estética em função do sistema de imagens da cultura cômica popular da Idade Média, atingindo seu apogeu na literatura produzida no Renascimento. O termo grotesco deriva-se de uma experiência histórica e artística concreta, correspondente à descoberta realizada em 1480 de um conjunto de imagens de pintura ornamental, produzidas em Roma antiga, em um complexo arquitetônico completamente soterrado, denominadas pelos contemporâneos de grotescas, do italiano grotta (gruta). A particularidades dessas imagens consistia na mistura de elementos representativos de vários reinos naturais em uma única imagem. Assim, o grotesco irrompe como um tipo de manifestação artística que surpreende, segundo Bakhtin (1993, 28):
pelo jogo insólito, fantástico e livre das formas vegetais, animais e humanas que se confundiam e transformavam entre si. Não se distinguiam as fronteiras claras e inertes que dividem esses 'reinos naturais' no quando habitual do mundo: no grotesco, essas fronteiras são audaciosamente superadas.
              O objeto grotesco é o contraste do objeto ideal concebido pela estética clássica, o belo, que segundo Dufrenne (2015, p. 45):
É uma quantidade presente em certos objetos – sempre singulares – que nos são dados à percepção. É a plenitude, experimentada imediatamente pela percepção (mesmo se essa percepção requer longa aprendizagem e longa familiaridade com o objeto). Perfeição do sensível, ante de tudo, que se impõe com uma espécie de necessidade e logo desencoraja qualquer ideia de retoque. Mas é também imanência total de um sentido ao sensível, sem o que o objeto seria insignificante: agradável, decorativo ou deleitável, quando muito.
              A qualidade essencial do objeto grotesco reside na percepção do aparente imaterial identificado como feio, cuja produção não decorre do simples contraste com a coisa bela. Segundo Sodré e Paiva (2014, 19), não se trata do mero feio, mas do grotesco, "um tipo de criação que as vezes se confunde com as manifestações fantasiosas da imaginação e que quase sempre nos faz rir." A qualidade de feio "tem seu modo específico de ser, requer uma produção particular, que não é o puro negativo do belo". Para esses autores, o grotesco resulta do rebaixamento, entendido como
combinação insólita e exasperada de elementos heterogêneos, com referência frequente a deslocamentos escandalosos de sentido, situações absurdas, animalidade, partes baixas do corpo, fezes e dejetos – por isso, tida como fenômeno de desarmonia do gosto [....] que atravessa as épocas e as diversas conformações culturais, suscitando um mesmo padrão de reações: riso, horror, espanto, repulsa. (SODRE e PAIVA, 2014, p. 17)
              Para Bakhtin (1993, p. 17) o rebaixamento é "a transferência ao plano material e corporal, o da terra e do corpo na sua indissolúvel unidade, de tudo que é elevado, espiritual, ideal e abstrato." O rebaixamento se dá, portanto, mediante a representação com caracteres grotescos dos aspectos mais evidentes de evento, imagem, fato histórico ou ideia, apresentado geralmente como uma pálida alusão ao bem imaterial em referência. Há várias ocorrências de rebaixamentos no texto de Rabelais, sendo notáveis o modo de nascimento de Gargantua, que faz alusão ao nascimento da deusa Atena, e a captura do frade Jean pelo capacete no galho de uma nogueira, descrita no Capítulo XLIII, em alusão ao ocorrido com Absalão, filho de Davi, que fugindo depois de perder a batalha, ficou preso pelos cabelos no emaranhado de uma árvore maciça[2].
              Bakhtin assevera que o aspecto essencial do grotesco é a deformidade. Nesse sentido, Rabelais põe muitas deformidades em seu herói, formando imagens ostensivas que notabilizam os excessos, como a grande estatura de Gargantua, que se justifica porque o autor o concebe como um ser gigante. Esse aspecto poderia incorporar outros aparentes excessos ao plano da normalidade, como a glutonaria, consumo exagerado de alimentos para justificar as necessidades nutricionais de um corpo demasiado. Mas Rabelais deixa transparecer em seu texto que a desproporcionalidade de Gargantua não se atém à sua estatura, quando comparada a humanos normais. Tudo em Gargantua é hipertrofiado. Há sobras até para um corpo gigante, que se evidenciam na quantidade e na frequência dos alimentos consumidos; na linguagem desprovida de qualquer pudor; e no comportamento errático do herói, que o leva, por exemplo, a furtar o sino da catedral de Notre-Dame para fazê-lo de guizo para sua mula.
              Outras imagens são esmaecidas, mas igualmente fogem do âmbito da normalidade. Uma delas é o potencial de transformação pessoal de Gargantua, uma criatura inicialmente bruta, sem qualquer controle de seus instintos, que se comporta como um ser espontâneo e pueril, com baixas habilidades sociais, cujas ações são voltadas predominantemente para satisfazer suas necessidades naturais, em uma pessoa centrada, que desenvolve em curto intervalo de tempo várias habilidades cognitivas, motoras, sociais e políticas, revelando-se um ser inteligente por trás de um corpo desengonçado.
              Outra imagem quase imperceptível configura na verdade um movimento do texto. É a transformação da própria narrativa. A medida que o texto prospera, todos os excessos dos primeiros capítulos perdem intensidade, as próprias personagens broncas são eliminadas sem qualquer justificativa, como o inexplicável sumiço de Gargamelle e a perda de protagonismo de Grandgousier, dando lugar a discursos mais bem concatenados e a personagens intelectualmente mais ricas, como o frade Jean. Essa evolução do texto dá-se concomitante com o avanço do processo de educação de Gargantua.
              Não há indícios de que esse belo aparente, que flerta com a estética clássica, perdure, pois os textos seguintes de Rabelais, narrando as aventuras de Pantagruel, seguem a cartilha do grotesco. São apenas mudanças sutis no trajeto, sem, contudo, mudar o destino, condizente com o pensamento de Bakhtin (1993, 46) de que o verdadeiro grotesco não é estático:
esforça-se, aliás, por exprimir nas suas imagens o devir, o crescimento, o inacabamento perpétuo da existência: é o motivo pelo qual ele dá nas suas imagens os dois polos do devir, ao mesmo tempo o que parte e o que está chegando, o que morre e o que nasce; mostra dois corpos no interior de um único, a germinação e a divisão da célula viva.
              Esse fragmento deixa transparecer que o grotesco terá também lugar na nova ordem regida por Gargantua, seja na pessoa desse herói, ou de seus sucessores, no caso, de Pantagruel.

A relação de Gargantua com os alimentos como expressão do grotesco
              Bakhtin (1993, 16) afirma que a obra de Rabelais é informada pelo princípio da vida material e corporal, que engloba as imagens do corpo, da comida, da bebida e da satisfação das necessidades naturais do corpo. O corpo de Gargantua é um corpo agigantado. Já nasce gigante, em meio a um incidente alimentar sofrido por Gargamelle, que após empanturrar-se de "tripas gordas de reses" e participar de outro laudo festim, é acometida por forte desarranjo intestinal, cujas contrações induzem o parto do herói. Seu nascimento dá-se pelo ouvido, emulando o nascimento da deusa grega Atena, que nasce da cabeça de Zeus, seu pai. O modo de nascimento de Gargantua aponta o intento subliminar de Rabelais de associar seu herói à deusa da razão, das habilidades intelectuais e artísticas. Assim como Atena revela sua vocação ao nascer, vindo ao mundo empunhando a espada e o escudo, preparada para enfrentar grandes batalhas, Gargantua também mostra sua vocação quando grita logo após seu nascimento: "Beber! Beber! Beber!, sinalizando que beber, assim como comer, seria pratica recorrente no curso de sua existência. O pequeno glutão mostrou sua índole logo nos primeiros dias de nascido, pois exigia milhares de vacas leiteira para suprir suas necessidades nutricionais, além do leite materno e das amas.
              De fato, a comida e a bebida são elementos de comicidade recorrentes no texto de Gargântua. Segundo Bakthin (1993, p. 243), o banquete "é uma peça necessária a todo regozijo popular. Nenhum ato cômico essencial pode dispensá-lo." As personagens vivem imersas em um ambiente em que os alimentos são a razão de ser da existência, no qual os hábitos alimentares são constituintes das identidades comportamental e psíquica dos indivíduos. Assim, o pai de Gargantua, Grandgousier, era um folgazão que "gostava de beber bastante, como os homens que então tinha vindo ao mundo, e de comer alimentos salgados." (Capítulo III); Gargantua, quando criança de tenra idade, tinha no alimento uma fonte de consolo de suas ansiedades, pois "o simples ruído dos barris e das garrafas fazia-o entrar em êxtase como se gozasse das alegrias do paraíso." (Capítulo VII); e quando adulto declarava que "minha natureza exija que eu durma depois de comer e coma depois de dormir." (Capítulo XXII); o frade Jean, companheiro de guerra de Gargantua, declara que fez com seu apetite "um pacto segundo o qual ele comigo se deita e comigo se levanta." (Capítulo XLI).
              O glamour e o requinte do Banquete de Platão, no qual os convivas proferem discursos e defendem teses sobre temas filosóficos postos em debate, dão lugar em Gargantua a comilanças desregradas, entrecortadas por diálogos desordenados, centrados na própria comida e bebida, como no banquete descrito no Capítulo V, que tem por título "As conversas dos bebedores". Neste, os pensamentos dos convivas divagam e se exteriorizam na forma de máximas ou de questões sobre o cotidiano, respondidas de imediato pelos interlocutores sem necessidade de recorrer a uma cadeia de raciocínio lógico para demonstrar a verdade das assertivas. Quem surgiu primeiro, a sede ou a bebida? Que diferença há entre a garrafa e a botija? "Bebedeiras longas cortam trovão", são questões e máximas postas em discussão.
              Nota-se, pois, que o banquete em Gargantua é construído por meio do rebaixamento das práticas e do comportamento dos convivas do banquete platônico. O debate filosófico e a compostura à mesa verificados neste são reduzidos naquele a conversas triviais, sem qualquer densidade intelectual, e à balburdia dos convivas, provocada pela tentativa de cada um obter seu quinhão de alimentos para saciar seu apetite voraz.
              A comida e a bebida figuram até em narrativas de ação que, por seu potencial de entreter per si, poderiam prescindir de qualquer outro recurso cômico. Nesse sentido, no episódio de furto, negociação e devolução dos sinos da catedral de Notre-Dame realizados por Gargantua, aventura que se desenvolve ao longo dos Capítulos XVII a XX, Rabelais deixa entrever que a bebida e a comida são elementos motores da ação e da solução do litígio, instrumentos de barganha muito eficazes para assegurar a impunidade do herói. Inicialmente, Gargantua decide furtar o sino para fazê-lo de guizo para sua égua, a fim de devolvê-la ao pai "toda carregada de queijos de Brie e de arenques frescos" (Capítulo XVII). O chefe da comissão de teólogos designada para negociar a devolução do sino chega na casa do herói com o estômago "bem esterilizado com marmelada e água-benta de adega" (Capítulo XVII); mas Gargantua decide, antes de devolver o instrumento aos negociadores "dar-lhes de beber teologalmente" e, a título de reparo dos danos, indenizá-los com presentes, entre os quais dez palmos de salsicha e vinte e cinco "moios" de vinho.
              Comida e bebida são também companhias indissociáveis no processo de educação formal de Gargantua. No período de três aos cinco anos, a rotina do herói consistia em conviver com outras crianças "bebendo, comendo e dormindo; comendo, dormindo e bebendo; dormindo, bebendo e comendo". (Capítulo IX). Durante a adolescência e o início da vida de adulto, revela Rabelais, Gargantua estudava meia hora, mas tinha o pensamento na cozinha. No jantar esse herói tinha como entrada "dúzias de presuntos, de línguas de vaca defumadas, de ovas de peixe, de chouriço e outros precursores do vinho", enquanto quatro criados punham em sua boca, sequencialmente, "colheres de mostardas", encerrando sua refeição com "um formidável trago de vinho branco". Descreve Rabelais: "Em suma, comia de acordo com a estação, as carnes que lhe apeteciam e só parava de comer quando a barriga inchava. Quanto a beber, fazia-o a torto e a direito, pois afirmava que só se devia reduzir e limitar a bebida quando a cortiço dos chinelos estufasse meio pé." (Capítulo XXI).
              A comida é fonte de prazer, mas também de guerra. Motivada por um conflito de somenos importância entre pastores e vendedores de fogaças, o reino de Grandgousier vê-se envolvido em uma guerra absurda com o reino vizinho, governado por Picrocolo, que pretende usar o pequeno incidente para dar vazão a sua índole belicista e expansionista de seus domínios. Uma das primeiras batalhas da guerra é travada nos domínios de uma abadia. A estratégia inicial dos religiosos diante da iminente invasão consiste em entoar cânticos religiosos e fazer voto de celebrar mais cerimônias religiosas em tempo de paz, em apelo aos poderes celestes. A inércia muda somente quando o vinhedo da abadia está prestes a ser destruído pelas tropas do invasor, fato que os impele a agir em defesa de seu precioso tesouro. O discurso para levantar o moral dos frades guerreiros é bem emblemático de quanto reputado parece ser o vinho:
Por Deus! – exlama Jean des Entommeures, – cantam muito bem! Mas porque não cantam: 'Adeus vindima'? Quero ir para o diabo se não for verdade que eles estão dentro da quinta cortando as videiras e as uvas! Dentro de quatro anos, não tiraremos nada! Que vamos beber depois? Senhor Deus, da mihi potum! (Dá-me de beber) (Capítulo XXVII)
              A luta renhida travada em defesa do vinhedo produz uma carnificina de expressiva magnitude, com vitória dos religiosos, após o aniquilamento de 13.622 soldados do exército invasor. No curso da guerra há vários outros episódios envolvendo comida e bebida, como o banquete de recepção oferecido por Grandgousier a Gargantua, que viera de Paris para se incorporar aos esforços de guerra. Nesse banquete, parece haver uma ordem dos pratos: primeiro são servidos, assados, dezenas de animais domésticos de carne vermelha como bois, cabritos, carneiros e leitões; em seguida, são servidas as aves e, por fim, animais selvagens, entre aves e mamíferos, tudo para saciar a fome do herói e de sua comitiva.
              No arremate do evento, Gargantua come um prato de salada de alface, em cujas folhas seis homens peregrinos tentavam se esconder, sendo quase devorados pelo herói destrambelhado. No final da guerra, Grandgousier oferece a Gargantua e a seus soldados "o banquete mais suntuoso, mais abundante e mais delicioso que se viu desde os tempos do rei Assuero." A qualidade dos diálogos mostra-se mais elevada, refletindo o novo status intelectual de Gargantua após a conclusão de seu ciclo de formação escolar e a agregação do frei Jean a seu círculo de interlocutores.
              Com o fim da guerra, encerram-se também as comilanças. Grandgousie doa a seus soldados, após o banquete final, seus aparatos de buffet. Simbolicamente, nasce uma nova ordem política, social e econômica, emersa das perspectivas de paz duradoura, regida pelo comedimento. Gargantua torna-se um estadista de grande tino político e administrativo, tomando decisões sábias na gestão dos negócios do reino e no interesse do povo. O herói renega a glutonaria, fazendo gravar, como princípios de vida, no pórtico da cidade mais importante do reino a mensagem "Cá não entreis, gulosos praticantes [...] Cá não entreis, sedentos usurários // Glutões, lambazes, que viveis juntando // Unhas-de-fome, comilões de neve." (Capítulo LIV).

Considerações finais
              Gargantua é uma obra literária que capta bem o espírito de uma época, reproduzindo em suas páginas a linguagem das praças públicas e traços caricatos da cultura popular dominantes na Idade Média e no Renascimento. A estética grotesca aflora no texto. O enredo, as personagens, a linguagem e as situações absurdas que animam o romance compõem um conjunto de imagens marcadas pela deformidade e pelo rebaixamento, duas técnicas de evidenciação do grotesco. As imagens relacionadas com comidas e bebidas são elementos de comicidade recorrentes no texto de Rabelais. O grotesco dessas imagens se realiza por meio da comilança desregrada, da quantidade imensurável das fontes dos alimentos e do comportamento anárquico dos convivas à mesa. Os banquetes parecem ter a única finalidade de gerar oportunidades para os convivas se refestelarem. Mas nota-se uma inflexão desse comportamento desregrado, que se atenua à medida que Gargantua avança para a vida adulta e se educa, a ponto de, depois de sua formação completa, os banquetes terem sido simbolicamente abolidos por meio do ato de Grandgousier de doar seus instrumentos de cozinha, bem como das novas regras de condutas da cidade fundada após o conflito, que recriminam os glutões. Gargantua assume a gestão do reino, comportando-se como governante sábio, que reconhece o valor da educação e propugna para que seus súditos tenham também oportunidade de prosperar, educar-se em todas as artes e ofícios e serem felizes.
              Por todos esses aspectos, Gargantua é um romance que integra o panteão das grandes obras da literatura universal.




Bibliografia

BAKHTIN, M. A Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi. 2ª edição. São Paulo: Hucitec; Brasília: Edunb, 1993.

DUFRENNE, Mikel. Estética e filosofia. Tradução Roberto Figurelli – São Paulo: Perspectiva, 2015.

ECO, Umberto. História da feiúra. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2007.

ECO, Umberto. História da beleza. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2004.

ERICH, Auerbach. A novela no início do Renascimento: Itália e França. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Tradução de Victor Jabouille. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, [....].

KAYSER, W. O grotesco. São Paulo: Editora Perspectiva, 2013.

RABELAIS, F. Gargantua e Pantagruel. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1991

HUGO, V. Do grotesco e do Sublime. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007.

SODRÉ, M. & PAIVA, R. O império do grotesco. Mauad, 2014.
















[1] Evento descrito em 2 Samuel, Capítulo 18, versículo 9.