domingo, 30 de setembro de 2018

Autores relacionados ao grotesco

Seguindo a bibliografia, temos

https://gallica.bnf.fr/

GROTESCO

Victor Hugo
Edgard Alan Poe
F. Kafka
F.Nietzsche
S. Beckett
Bruno Schulz
James Joyce
Salman Rushdie
Merleau-Ponty

Goya
South Park
Zumbies
Gótico
Irmãos Cohen
David Lynch

Prokofiev
Bartók
Shostakovitch




MOREL, Philippe. Les Grotesques: Les figures de l’imaginaire dans la peinture italienne de la fin de la Renaissance. Paris, 1997.

HARPHAM, Geoffrey Galt. On the Grotesque: Strategies of Contradiction in Art and Literature. Princeton, N.J., 1982.

DACOS, Nicole. La découverte de la Domus Aurea et al formation des grotesques à la Renaissance. London, 1969.

CONNELLY, Frances S. The Grotesque in Western Art and Culture: The Image at Play. New York and Cambridge, 2012.

WEISHAAR, S. Masters of the Grotesque: The Cinema of Tim Burton, Terry Gilliam, the Coen Brothers and David Lynch. McFarland, 2012.
MEINDI, D. American Fiction and the Metaphysics of the Grotesque. University of Missouri Press, 1996.

RUSSO, M. The Female Grotesque: Risk, Excess, and Modernity. Routledge, 1995.

SIDIQUE, S.(Org.) Transnational Horror Cinema: Bodies of Excess and the Global Grotesque. Palmgrave Macmiliian, 2017.

REMSHARDT, R. Staging the Savage God: The Grotesque in Performance. Southern Illinois University Press,2016.
SILVERGERG,M. Erotic Grotesque Nonsense: The Mass Culture of Japanese Modern Times. University of California Press, 2006.

Chao, S. Rethinking the Concept of the Grotesque: Crashaw, Baudelaire, Magritte. Legenda, 2010.


Existe um tradição da dança grotesca.
https://www.nytimes.com/1984/04/15/arts/dance-view-grotesque-imagery-has-come-to-dance.html

O grotesco na cena da dança contemporânea: corpo e comunicação

O corpo grotesco como articulador da cena: Meyerhold, Hijikata e os corpos que dançam






FIlosofia
Nietzsche

LInk: 

PHILOSOPHY AS GROTESQUE: THE CASE OF NIETZSCHE 
http://www.klemens.sav.sk/fiusav/doc/filozofia/2014/6/503-513.pdf


Sonoridade Amarela, de Kandinsky


A sonoridade amarela, de W. Kandinsky
Uma composição Cênica[1]

Tradução Marcus Mota

Agentes
Cinco gigantes
Seres indefinidos
Tenor ( na coxia)
Uma criança
Um homem
Pessoas com vestes soltas
Pessoas usando collants
Coro (na coxia)

Abertura
Alguns acordes da orquestra.
(sob cortina)
Em cena, temos um crepúsculo azul-escuro que de início tende ao esbranquiçado e que depois se torna um azul escuro mais intenso.  Em seguida, uma pequena luz se manifesta no centro, fazendo-se cada vez mais brilhante enquanto a cor azul obscurece. Depois um tempo, música vem da orquestra. Pausa.
Da coxia, ouve-se um coro que deve ser alocado ali para que a fonte do som não seja identificada[2]. As vozes mais graves vão se ouvir com mais destaque. O canto é regular, sem afetividade, com interrupções indicadas por reticências[3].

 VOZES GRAVES
 “Sonhos de pedra ....   e rochas falantes ...
Ressoam perguntas cheias de enigmas ...
O movimento do céu ... e a fusão ... das pedras.
Ergue-se invisível ... um muro ...”

VOZES AGUDAS
“Lágrimas e risos ...  Para maldições, orações...
A alegria da união e as batalhas mais escuras. ”
TODOS
“Luz trevosa no ... mais ensolarado ... dia.
(desaparecendo veloz e repentinamente)
Brilha sombra luminosa na noite mais escura!! ”
Fade out. Blecaute. Pausa mais longa. Em seguida, abertura da orquestra.

Quadro 1
(À direita e esquerda do espectador)
A área de atuação deverá estender-se até o fim do palco o máximo que der. Lá ao fundo, uma extensa colina verde. Atrás da colina, uma cortina lisa, opaca, azul, de um tom bem escuro.
Em seguida começa a música, inicialmente em frequências agudas. Após, passa imediatamente para as mais graves. Ao mesmo tempo, o fundo de cena muda para azul escuro (em sincronia com a música) e nele surgem bordas negras (como em um quadro). Da coxia ouve-se um coro sem palavras, que canta sem emoções, seco, mecânico. Ao final do canto do coro, uma pausa geral: nenhum movimento, nenhum som. Daí blecaute.
Após, a cena se ilumina. Da direita para a esquerda, cinco gigantes (os maiores possíveis) de um amarelo muito vivo são empurrados para o palco ( como se flutuassem sobre o piso).
Eles ficam imóveis ao fundo, um do lado do outro –uns com os ombros erguidos, outros com os ombros caídos, todos com estranhos e indefinidos rostos amarelos.
Viram o rosto uns para os outros bem lentamente, fazendo movimentos simples com os braços.
A música se torna mais definida.
Então se ouve o canto sem palavras e em baixa frequência em pianissimo (pp) dos Gigantes e eles vão se aproximando bem lentamente do centro do palco[4]. Voam velozes da esquerda para a direita umas criaturas vermelhas indefinidas, que assemelham um pouco a pássaros, e que têm cabeças grandes parecidas com as de seres humanos. Este voo se reflete na música.
Os gigantes continuam cantando, com frequências mais graves. Ao mesmo tempo, tornam-se cada vez menos visíveis[5].  A colina ao fundo cresce lentamente e vai se tornando mais nítida. Ao fim, está branca. O céu, totalmente escuro. 
Da coxia novamente se escuta o coro opaco. Não se ouve mais os gigantes.
A boca-de-cena torna-se azul e aos poucos menos brilhante.
A orquestra luta com o coro e o vence.
Uma névoa densa torna toda a cena invisível.

Quadro 2
Pouco a pouco a névoa desaparece e a luz vai irrompendo, completamente branca e intensa. Ao fundo, uma colina o maior possível, verde brilhante, muito redonda.
O fundo violeta, bem claro.
A música é estridente, tempestuosa, com repetições constantes de e si e si e lá bemol. Essas sons isolados são finalmente engolidos pelo ruidosa música em volta. De repente, silêncio total. Pausa. Novamente os gemidos e si mas de uma forma firme e nítida. Isso dura muito tempo. Depois, uma nova pausa.
Nesse momento, o fundo adquire uma cor marrom suja. A colina, verde sujo. E bem no centro da colina forma-se uma macha negra indefinível, que aparece ora mais brilhante, ora menos definida. Cada vez que a nitidez da mancha altera, a luz branca vai se tornando mais cinza. De repente, sobre a colina, à esquerda, uma grande flor amarela. De longe parece com um pepino retorcido, e vai se tornando cada vez mais brilhante. O talo é longo e fino. Uma única folha espinhosa cresce a partir do centro do talo, virada para o lado. Longa pausa.
Após, em silêncio total, a flor se balança bem lentamente da direita pra a esquerda. Depois, a folha também, mas não ao mesmo tempo. Mais ainda, ambas balançam em ritmos diferentes. Então, outra vez mas individualmente. No movimento da flor ressoa um si bem suave, no movimento da folha, um bem grave. Depois, balançam juntas, e seus sons ressoam ao mesmo tempo. A flor agita-se forte e fica imóvel. Na música, ambas as notas seguem ressoando. Ao mesmo tempo, entram pela esquerda um grupo de pessoas com vestes soltas, longas e sem formas e brilhantes ( um de azul, outro de vermelho, um outro de verde, etc. não há somente o amarelo). Essas pessoas levam em suas mãos umas flores bem grandes e brancas, parecidas com a flor da colina. Elas se mantêm o mais próximas umas das outras, passam perto da colina e param do lado direito da cena, umas quase que em cima das outras. Elas falam misturando suas vozes e recitam o seguinte:

“As flores cobrem tudo, cobrem tudo, cobrem tudo.
Feche os olhos! Feche os olhos!
Vemos, nós vemos.
Cobrir com inocência a concepção.
Abram os olhos! Abra os olhos !
Acabou. Acabou.”

De início, dizem isso todos junto, como em êxtase ( bem claramente). Depois, repetem o mesmo individualmente: uns para os outros e para os distantes, vozes de contralto, baixo e soprano. Quando recitam  “Vemos, nós vemos”, ressoa o si; quando recitam “Acabou. Acabou.”, ressoa o . Algumas vezes a voz fica mais rouca. Em outras, alguém grita como um possesso.  A voz fica nasal em outras ocasiões, ou lenta ou muito rápida em outras mais. No primeiro caso, a cena toda fica tomada por uma luz vermelha opaca. No segundo, há a alternância entre blecaute total e uma brilhante luz azul. No terceiro, de repente tudo se torna cinzento (todas as cores desaparecem!) Apenas a flor amarela brilha com uma intensidade maior ainda.
Aos pouco, começa a orquestra e seu som encobre o das vozes. A música torna-se instável, com saltos de fortissimo para pianissimo. A luz é mais clara, o que permite identificar vagamente as cores das pessoas. Umas figuras bem pequeninas, sem nitidez, de um ver cinzento indefinido, movem-se bem lentamente sobre a colina da direita para a esquerda. Elas olham para frente. Quando a primeira figura torna-se visível, a flor amarela começa a balançar como que se debatendo em convulsões. Em seguida, desaparece repentinamente, como repentinamente também as flores brancas se transformam em flores amarelas.
As pessoas caminham lentamente para a boca-de-cena como se estivesse em um sonho, e vão se afastando uma das outras cada vez mais.
A música diminui e ouvimos novamente no mesmo recitativo[6]. Em seguida as pessoas param, como que em êxtase, e se viram. Então se apercebem das pequeninas figuras que ainda passam em uma sucessão interminável sobre a colina. As pessoas se viram novamente, e se dirigem a passos rápidos para frente, param outra vez, tornam a virar e congelam, como que atadas[7]. Finalmente, as pessoas jogam as flores, as quais parece tomadas de sangue, e correm, livrando-se violentamente da imobilidade, todas juntas rumo ao mais extremo frontal da boca da cena. Olham ao redor diversas vezes[8]. Então, blecaute. De repente.
Quadro 3
Fundo da cena: duas rochas grandes marrom-vermelho, uma pontiaguda, outra arredondada e maior que a primeira. Fundo: negro. Os gigantes se encontram entre as rochas (do Quadro 1) e sussurram entre si algo que não faz muito som. Umas vezes sussurram em pares aproximando as cabeças uns dos outros. O corpo permanece sem se mover. De todos lados, em rápida alternância, caem raios de cores brilhantes (azul, vermelho, violeta e verde alternam-se diversas vezes). Depois todos esses raios se encontram no centro, e são misturados. Congela geral. Os gigantes quase não são visíveis. De repente, todas as cores desaparecem. Durante um instante, blecaute. Em seguida, uma cor amarela opaca flui pela cena e vai se tornando cada vez mais intensa, até que toda a cena é tomada de um amarelo-limão.  Como aumento da luz, a música vai diminuindo seu volume, tornando-se mais escura ( esse  movimento lembra a ação do caracol metendo-se em sua concha).Durante esses dois movimentos, nada deve ser visto em cena além de luz: nenhum objeto. A luz atingindo seu máximo brilho, a música se enfraquece completamente. Os gigantes voltam a ser visíveis, congelados, olhando para frente. As rochas desaparecem. Apenas os gigantes estão em cena agora: estão neste momento distantes uns dos outros e aparecem maiores. Fundo e chão negros. Pausa longa. De repente se escuta vindo da coxia ao fundo uma aguda voz de tenor completamente aterrorizada, que grita rapidamente palavras sem sentido(ouve-se muitas vezes : por exemplo, Kalasimunafakola!). Pausa. Fade out.
Quadro 4
À esquerda da cena, uma pequena edificação inclinada ( parecida com uma capela bem simples) sem portas ou janelas. Ao lado(saindo do telhado), uma pequena torre estreita com um pequeno sino rachado. Uma corda sai do sino. Uma criança pequena, vestida com uma camiseta branca (olhando para os espectadores) sentada no chão puxa lentamente e sempre a corda. À direita, em paralelo, um homem muito gordo, todo vestido de preto. Sua face é completamente branca, indefinida. A capela é vermelho sujo.  A torre, azul brilhante. O sino é de folha de metal. Fundo cinza, regular, liso. O homem de preto está com as pernas abertas e as mãos nos quadris.
O Homem (fala bem alto, mandando, com uma bela voz):
“Silêncio!”
A criança solta a corda. Fade out.
Quadro 5
A cena de modo gradual é imersa em uma luz vermelha fria, que vai lentamente ficando mais forte e lentamente se torna amarela. Nesse momento os Gigantes ao fundo se tornam visíveis (como no Quadro 3), assim como as rochas.
Os Gigantes voltam a sussurrar (como no Quadro 3). Quando suas cabeças estão juntas uma das outras novamente, ouve-se o mesmo grito, que vem da coxia, mas um grito muito mais rápido e breve. Blackout. O mesmo processo é repetido mais uma vez[9]. Quando a luminosidade retorna(luz branca sem sombras), os Gigantes sussurram novamente, mas agora fazendo movimentos suaves com as mãos (esses movimentos devem ser diversificados, mas suaves). De vez em quando um dos Gigantes abre e mantém os braços afastados (esse movimento pode ser apenas insinuado) e vira a cabeça um pouco para o lado, olhando para os espectadores. Por duas vezes os gigantes deixam seus braços de repente caírem ao longo do corpo, o que os torna um pouco maiores, e, sem movimento algum, olham para os espectadores. Em seguida, parece que uma espécie de convulsão toma conta de seus corpos (como a que aconteceu com a flor amarela) e voltam a cochichar, estendendo de vez em quando os braços bem suavemente, como que fazendo um lamento. A música lentamente torna-se mais intensa. Os Gigantes ficam imóveis. Um grupo de pessoas aparece da esquerda, trajando collants de cores variadas. Os cabelos de cada uma estão coloridos com a mesma cor de seus collants. Do mesmo modo seus rostos. (As pessoas parecem marionetes).Primeiro aparecem as de cinza; depois, as de negro, as de branco e, finalmente, as de colorido. Em cada grupo os movimentos são diversificados: um grupo caminha com pressa e em linha reta; outro, lentamente, como que com dificuldade; o terceiro apresenta volta e meia dá saltos graciosos; o quarto lança olhares em torno de si o tempo inteiro; o quinto chega com um andar teatral solene, cruzando os braços; o sexto vai na ponta dos pés, e mostrando a mão espalmada, etc.
Todos estão distribuídos de forma irregular pelo palco: alguns sentam-se em pequenos grupos fechados; outros, ficam sozinhos.  Da mesma forma, há alguns de pé em grupos, e outros sozinhos. Toda essa distribuição não precisa ser algo “belo”, nem muito determinado, mas não também precisa ser uma bagunça completa. As pessoas olham para diversas direções, algumas com as cabeças erguidas, outras com cabeça abaixada, quase caída.  Como que abatidas por imenso cansaço, elas raramente mudam suas posições. A luz é sempre branca. A música altera seu andamento frequentemente, e de vez em quando também se torna abatida[10]. Justamente nesse momento, um homem do grupo das de branco vindo da esquerda(bem ao fundo da cena)começa a fazer uns movimentos indefinidos com muita rapidez, umas vezes com os braços, outras com as pernas. Algumas vezes ele mantém um mesmo movimento por certo tempo e permanece na mesma posição por instantes. É como uma espécie de dança. Mas seu andamento se altera repetidas vezes, em algumas ocasiões em sincronia com a música, em outras não. (Esse procedimento simples deve ser elaborado com todo cuidado para que se produza um efeito bem expressivo e surpreendente). As demais pessoas pouco a pouco começam a olhar para o de branco. Algumas delas esticam o pescoço. Enfim, todas olham para ele. Então a dança abruptamente termina: o de branco senta-se,{...}


Quadro 6
(Este quadro deve acontecer com a maior rápido que for possível)
Fundo azul opaco, como no Quadro 1 (sem bordas escudas).
No centro do palco um gigante amarelo brilhante, com o rosto branco indefinido, olhos grandes, negros e redondos. Fundo e chão negros.
Ele levanta lentamente ambos os braços ao longo do corpo (as palmas das mãos para baixo), enquanto vai crescendo em altura.
Quando alcançar toda a altura da caixa cênica e sua figura se parecer com uma cruz, blecaute. A música é expressiva, assemelhada ao que acontece em cena.



[1] Thomas von Hartmann ficou encarregado da parte musical.
[2] NT. No original:  “welcher so eingerichtet werden muss, dass die Quelle des Gesanges nicht zu eknnen ist. ” Isto é: o coro “deve ser disposto de um jeito que não seja possível discernir a origem do canto”.
[3] NT. No original “ohne Temperament”.  No lugar de traduzir por cognato, o que levaria a questão do temperamento musical, questão sobre afinação e medição de intervalos musicais, dentro do contexto vemos que o termo se refere tentativa de se reduzir respostas emocionais na canção por meio da ênfase na equalização dos atos performativos. Assim, “sem temperamento” aqui refere-se a uma performance sem disposições mais explicitas de emoções, algo mais próximo de uma máquina.
[4] NT. No original, “Rampe”. Seria vago traduzir por “rampa”, pois no caso Kandinsky está se referindo ao lugar de destaque da área de atuação, a ribalta,  onde um fila de refletores no chão ilumina o ator.
[5] No original, “undeutlich”, “indistinto”, “vago”, “difuso”, “obscuro”, ”borrado”.
[6] Metade da frase é falada em conjunto: ao final da frase, uma voz bem indistinta. Isso se alterna diversas vezes.
[7] Esses movimentos devem ser realizados como se houvesse uma voz de comando determinando-os.
[8] Esses movimentos não precisam sem ritmizados.
[9] Naturalmente, a música também tem de ser repetida.
[10] NT. No original “hier und da wird auch sie matt”, ou “torna-se abatida também”. O adjetivo “matt” associa-se a ‘fraco’,’suave’, ‘abatido’, ‘fosco’, ‘aborrecido’. O contexto imediato aqui é a homologia (‘auch’)  entre o som da música e a ação das pessoas. As pessoas estão abatidas,exauridas, e a música de vez em quando fica também como as pessoas. O que é difícil nessa homologia é precisar em que o som adquire essa lassidão- se é no timbre ou no tempo. A música pode ralentar, ou pode ficar mais abafada, menos brilhante: opaca.

O som amarelo, de Kandinsky


[1]
O SOM AMARELO
Uma composição para palco de KANDINSKY15
[3]
O SOM AMARELO
Uma composição para palco*
Tradução:  Anabela Mendes.


Participantes:

Cinco gigantes
Seres indistintos
Tenor (por detrás do palco) Uma criança

Um homem
Pessoas em traje solto
Pessoas em maillots
Coro (por detrás do palco)

*A parte musical esteve a cargo de Thomas von Hartmann.
[5]
15 [O exemplar que se encontra nos Arquivos Kandinsky, completado pelo autor, possui a inscrição seguinte:] “A vida é realmente bela... mas as pessoas são demasiado estúpidas/ Prof. Dr. N. v. Hildebrandt, Stuttgart, 28 de Junho de 1924.” ( Boissel, 1998: 60.)
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INTRODUÇÃO
Alguns vagos acordes na orquestra. Pano de boca.
No palco um crepúsculo azul claro que começa por ser esbranquiçado e só depois se vai tornando num azul-escuro intenso. Algum tempo depois, torna-se visível no meio do palco uma pequena luz que, com o acentuar da cor, vai ficando mais clara. Algum tempo depois,
Música de orquestra. Pausa.

Atrás do palco ouve-se um coro que tem de ser organizado de modo a não se reconhecer
a origem do canto. Devem ouvir-se principalmente as vozes dos baixos. O canto é uniforme, sem temperamento, com paragens que são assinaladas por reticências.

6
Primeiro v o z e s g r a v e s:
“Sonhos pétreos... <3’’> E rochedos falantes... <4’’>
Leivas com enigmas de perguntas saturantes... <5’’>
Do movimento do céu... <3’’> E fusão... <2’’> das
Pedras... <4’’>
Crescendo invisível em direcção às alturas... <5’’> um bastião...” <2’’>
V o z e s a g u d a s:
“Lágrimas e risos... <3’’> Orações por entre imprecações... <3’’> Unidos o prazer e as mais negras batalhas.”
T o d a s a s v o z e s:
“ Luzes das trevas no... <4’’> mais ensolarado... <5’’> dia (extinguindo-se depressa e de repente).
“Sombra de um brilho estridente na mais escura noite!!”
A luz desaparece. De repente, faz-se escuro. Pausa mais prolongada. <15’’> A seguir entra a orquestra...
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1o QUADRO
7
<Pausa 5’’> (À direita e à esquerda do espectador.)
Neste quadro o palco tem de estar a grande profundidade. Lá atrás, uma vasta colina verde. Por detrás da colina, um telão liso, baço, azul, de cor razoavelmente escura.
Em breve <5’’> começa a música, primeiro em registo agudo, <10’’> passando, imediatamente a seguir e de forma rápida, para registos graves. Ao mesmo tempo o fundo torna-se azul-escuro (acompanhando as mudanças musicais) e adquire largas margens pretas (como num quadro). Por detrás do palco ouve-se um coro sem palavras que canta sem emoção, bastante seco e mecânico. <60’’> Quando o coro acaba de cantar, pausa geral: ausência de movimento, ausência de som. <10’’> A seguir escuro. <5’’>
A seguir a mesma cena será iluminada. Da direita para a esquerda, cinco gigantes de um amarelo estridente (tão grandes quanto possível) serão empurrados para cena (como se estivessem suspensos mesmo por cima do solo).
Eles ficam de pé, bem lá atrás, ao lado uns dos outros uns com os ombros levantados, outros com eles descaídos, com rostos estranhamente amarelos e indistintos. <5-10’’>
M u i t o devagar eles voltam as cabeças uns para os outros e executam movimentos simples com os braços. <30’’>
A música torna-se mais acentuada.
Logo a seguir, o canto m u i t o grave e sem palavras dos gigantes torna-se audível (pianissimo), e eles aproximam-se m u i t o devagar da ribalta... <15’’> Da esquerda para a direita voam a toda a pressa seres vermelhos indistintos que, d e c e r t o m o d o, fazem lembrar pássaros com grandes cabeças, vagamente aparentados com seres humanos. Este vôo reflecte-se na música.
[Esboço] 8
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Os gigantes continuam a cantar e sempre cada vez mais baixo, tornando-se por isso cada vez mais indistintos. A colina ao fundo vai aumentando devagar e torna-se cada vez mais clara. Por fim, fica branca. O céu torna-se completamente preto. <20’’>
Por detrás do palco começa a ouvir-se o mesmo coro seco. <30’’> Os gigantes deixam de se ouvir.
O proscénio torna-se azul e cada vez mais opaco.
A orquestra luta com o coro e vence-
o. <5’>
Uma nebulosidade espessa e azul torna todo o palco invisível.
2o QUADRO
<Pausa 10’’>
11
A nebulosidade azul vai a pouco e pouco dando lugar à luz que é de um branco totalmente estridente. <20’’> No palco, ao fundo, uma colina tão grande quanto possível, de um verde estridente.
O fundo é violeta, bastante claro.
A música é estridente e impetuosa, com repetições constantes de lás e de sis e de sis e de lás bemol. Estes sons individualizados acabam por ser engolidos pela forte impetuosidade da música. <5- 10’> De repente, faz-se silêncio total. Pausa. <10’’> O lá e o si voltam a gemer lastimosos, mas com determinação e estridência. Isto dura bastante tempo. <10’’> Depois novamente uma pausa. <5’’>
Nesse momento, o fundo torna-se de repente castanho sujo. A colina torna-se verde sujo. E mesmo no centro da colina forma-se uma mancha negra indefinida que ora se evidencia or desaparece. <15’’> Sempre que se altera a nitidez, a luz branca estridente torna- se, de modo descontínuo, mais cinzenta. À esquerda sobre a colina vê-se de repente uma enorme flor amarela. Ela parece-se vagamente com uma espécie de enorme pepino curvo e vai-se tornando cada vez mais estridente. A haste é comprida e fina. <10’’> Do meio do
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caule cresce apenas uma folha estreita, espinhosa e que está inclinada obliquamente. Longa pausa. <25’’>
12
Pouco depois, em c o m p l e t o s i l ê n c i o, a flor baloiça muito devagar da direita para a esquerda. A seguir também a folha se move mas não em simultâneo. <10’’> Pouco depois ainda, baloiçam ambas em ritmo desencontrado. <5’’> Voltam então a baloiçar, cada uma por si <10’’>, embora o movimento da flor seja acompanhado pelo som muito fraco de um si, e o movimento da folha, acompanhado por um lá muito profundo. Depois voltam ambas a baloiçar ao mesmo tempo e os dois sons ouvem-se em consonância. <10’’> A flor estremece violentamente e fica sem se mexer. As duas notas continuam a ouvir-se na música. Ao mesmo tempo aparecem, vindas da esquerda, muitas pessoas de vestes soltas, compridas e estridentes (uma está toda de azul, a segunda de vermelho, a terceira de verde, etc., só falta o amarelo). As pessoas trazem na mão flores brancas muito grandes que se parecem com a flor sobre a colina... As pessoas mantêm-se o mais possível perto umas das outras, passam junto à colina e ficam do lado direito do palco, muito apertadas umas contra as outras. Elas falam com vozes misturadas e recitam:
“ As flores cobrem tudo, cobrem tudo, cobrem tudo. Fecha os olhos! Fecha os olhos!
Nós contemplamos. Nós contemplamos.
Cobrimos de inocência a concepção.

Abre os olhos! Abre os olhos! Já lá vai. Já lá vai.” <30’’>
Primeiro, todas juntas e como que em êxtase, dizem isto (com muita clareza). Depois repetem tudo individualmente, uma a seguir à outra, e projectando à distância as vozes de contralto, baixo e soprano. Ao dizerem “Abre os olhos, abre os olhos”, ouve-se um si. Ao dizerem “Já lá vai, já lá vai”, ouve-se um lá. De vez em quando, a voz torna-se rouca. De vez em quando, alguém grita como se
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estivesse possesso. De vez em quando, a voz torna-se nasal, ora lenta, ora furiosamente rápida.* No primeiro caso, todo o palco Fica de repente iluminado por uma luz vermelha mate que o torna indistinto. No segundo caso, alterna a total escuridão com uma luz azul estridente. No terceiro, tudo se torna de repente acinzentado (desaparecem todas as cores!) Só a flor amarela brilha ainda com mais intensidade! <60’’>
A pouco e pouco a orquestra ataca e abafa as vozes. A música torna-se agitada, dá saltos de fortissimo para pianissimo. A luz torna-se um pouco mais clara e as cores das pessoas reconhecem-se de forma indistinta. <60’’> Da direita para a esquerda deslocam-se muito devagar, colina acima, umas figurinhas muito pequenas, indistintas, de uma cor verde acinzentada de tonalidade vaga. Elas olham à sua volta. No momento em que a primeira figura se torna visível, a flor amarela baloiça como se tivesse espasmos. Depois desaparece de repente. Com a mesma rapidez, todas as flores brancas se tornam amarelas.
As pessoas deslocam-se devagar, como num sonho, em direcção ao proscénio e vão-se afastando cada vez mais umas das outras.
*Luz: qd. a voz é nasal vermelho / qd. ela é lenta azul cl.[aro] / qd. é rápida cinzento. [Acrescentado à mão por Kandinsky na margem esquerda] (Boissel, 1998: 76.)
13
A música baixa e volta a ouvir-se o mesmo recitativo.* Em breve as pessoas ficam de pé, como que em êxtase, e voltam-se de costas. Apercebem-se, de repente, das pequenas figurinhas que continuam a passar por cima da colina numa sequência interminável. As pessoas voltam-se, dão uns passos rápidos em direcção ao proscénio, voltam a ficar imóveis, viram-se de novo e ficam impassíveis, como que ligafas umas às outras.** <10’’> Por fim atiram fora as flores que parecem impregnadas de sangue e, libertando-se com violência da imobilidade, correm coladas umas às outras em direcção ao proscénio. Frequentemente olham em redor.*** De repente faz-se escuro.
* Meia frase pronunciada em conjunto; o final da frase de uma voz soa muito indistinto.
29
** Estes movimentos têm de ser executados como se fosse uma ordem. *** Estes movimentos não precisam de ir a compasso.
14
Plano anterior do palco: dois grandes rochedos de um vermelho acastanhado, um pontiagudo, o outro arredondado e maior do que o primeiro. Entre os rochedos estão de pé os gigantes (do 1o quadro) e sussurram uns aos outros qualquer coisa que não se ouve. Em breve sussurram aos pares, em breve todas as cabeças se aproximam umas das outras. O corpo permanece imóvel. Em mutações rápidas surgem de todos os lados feixes de luz de cores estridentes (azul, violeta, verde, mudando diversas vezes).
<20-
30’’> Depois todos os feixes de luz convergem em direcção ao centro, sendo aí misturados. Tudo permanece imóvel. Os gigantes estão quase a deixarem de se ver. De repente todas as cores desaparecem. Durante um momento fica tudo preto. Depois derrama-se no palco uma luz amarela mate que, a pouco e pouco, se vai tornando cada vez mais intensa, até todo o palco ficar amarelo- limão estridente.* Com o aumento da luz a música baixa e torna-se cada vez mais sombria (este movimento faz lembrar um caracol a comprimir-se na casca). <a.l. 5’>16 Durante estes dois movimentos não deve ver-se no palco nada a não ser luz: nenhuns objectos. A luz atingiu a sua intensidade máxima, a música é completamente langorosa. Os gigantes voltam a ser perceptíveis, estão imóveis e olham em frente. Os rochedos não voltam a aparecer. No palco estão apenas os gigantes: agora estão mais separados uns dos outros e tornaram-se maiores. O fundo e o chão são pretos. Longa pausa. <20’’> De repente ouve-se atrás do palco uma voz estridente e assustada de tenor que grita muito depressa palavras completamente incompreensíveis (ouve-se muitas vezes lá: p. ex.. Kalasimunafakola!). Pausa. <5’’> Durante um momento faz-se escuro. <3’’>
3o QUADRO
<Pausa 30’’> <Cores sujas.>
30
16 [a. l. é a abreviatura da expressão latina ad libitum à escolha.]
* [Este acrescentamento do autor (margem esquerda) não se refere a uma passagem específica do texto:)] O amarelo domina tudo. Tudo se funde. Também a música deve ser melodiosa. Deve terminar com instrum.[ento(s)] de madeira em tonalidade baixa e nasalada (oboé).
15
4o QUADRO
<Não há qualquer música neste quadro!>
À esquerda, no palco, um pequeno edifício inclinado (semelhante a uma ermida muito simples) sem porta nem janela. Ao lado do edifício (a partir do telhado) uma torrezinha estreita, inclinada, com um pequeno sino rachado. Pendente do sino uma corda. Uma criança pequena, de camisinha branca e sentada no chão (virada para o espectador), puxa devagar e compassadamente a parte inferior da corda. <30’’> <uma batidela cada 3’’> À direita, no mesmo alinhamento, um homem muito gordo está de pé, todo vestido de preto. O rosto todo branco, muito indistinto. A ermida é de um vermelho sujo. A torre, azul estridente. O sino é de lata. Fundo cinzento por igual, liso. O homem de preto está de pé, de pernas abertas e com as mãos postas nas ancas.
O homem (ordenando muito alto, com bonita voz): “Caluda!!”
A criança larga a corda. Faz-se escuro.
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5o QUADRO
O palco enche-se a pouco e pouco de uma luz vermelha fria que progressivamente <60’’> se vai tornando mais intensa, ao mesmo tempo que passa devagar a amarelo. <60’’> Nesse momento, os gigantes ao fundo tornam-se visíveis (como no 3o quadro). Também lá se encontram os mesmos rochedos.
Os gigantes voltam a sussurrar (como no 3o quadro). Nessa altura, quando as cabeças deles voltam a estar juntas, ouve-se atrás do palco o mesmo grito, mas muito rápido e breve. Durante um
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momento faz-se escuro. <3’’> O mesmo processo repete-se uma vez mais.* Depois de ter clareado (luz branca sem sombras), os gigantes voltam a sussurrar, ao mesmo tempo que executam ligeiros movimentos com as mãos (estes movimentos têm de ser diferentes, embora subtis). De vez em quando, um deles espreguiça-se (este movimento também não deve passar de uma alusão) e põe a cabeça um pouco de lado, olhando para o espectador. Por duas vezes todos os gigantes deixam cair os braços de repente, tornam-se um pouco maiores e olham imperturbáveis para o espectador. Depois os corpos deles são alvo de uma espécie de convulsão (semelhante à da flor amarela) e põem-se de novo a sussurrar, afastando de vez em quando os braços ligeiramente
* É óbvio que a música tem igualmente de se repetir.
como se se queixassem. <a.l. não mais de 3 a 5’> A música vai-se tornando a pouco e pouco mais estridente. Os gigantes permanecem quietos. Da esquerda surgem muitas pessoas com maillots de diversas cores. Os cabelos estão cobertos com a cor do respectivo maillot. Tal como os rostos. (As pesssoas parecem bonecos articulados). Primeiro aparecem pessoas cinzentas, depois pretas, brancas e finalmente às cores. Os movimentos são diversos em cada grupo: um caminha depressa e em frente; o outro devagar, com esforço; o terceiro dá de vez em quando saltos divertidos; o quarto está permanentemente a olhar em torno de si; o quinto avança com passos teatrais e festivos e traz os braços cruzados; o sexto caminha em bicos de pés com a palama da mão para cima, etc.. <3 a 5’>
Todos se espalham de modo distinto pelo palco: uns sentam- se em pequenos grupos fechados, outros sentam-se sozinhos. Outros estão de pé em grupo, enquanto outros estão isolados. Toda a distribuição não tem que ser nem “bonita”, nem muito ordenada. Também n ã o d e v e s e r uma t o t a l confusão. As pessoas olham para diferentes lados, algumas estão com as cabeças levantadas, outras com elas baixas ou completamente viradas para o chão. Como que atingidas por um abatimento, raramente mudam de postura. A luz mantém-se sempre branca. A música muda muitas vezes de andamento, mas de vez em quando também enfraquece. Exactamente num destes momentos, uma pessoa de branco, à esquerda (bem ao fundo), executa movimentos indefinidos mas
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muito rápidos, ora com os braços, ora com as pernas. De vez em quando mantêm um movimento durante mais tempo e conservam- se na respectiva posição por alguns momentos. É como se fosse uma espécie de dança. Só que o ritmo também se altera com frequência, daí que muitas vezes vá ao compasso da música e outras não. (Este processo simples tem de ser desenvolvido com particular cuidado, para que o que vem a seguir exerça um efeito expressivo e surpreendente). As outras pessoas começam progressivamente a olhar para a pessoa de branco. Algumas esticam os pescoços. Por fim, olham todas para ela. Esta dança, porém, termina muito de repente: a pessoa de branco senta-se, estica um braço como se se tratasse de uma preparação festiva, e dobrando-o devagar pelo cotovelo, leva-o à cabeça. A tensão geral torna-se particularmente expressiva. A pessoa de branco, porém, bate com o cotovelo no joelho e põe a cabeça na palma da mão. <Música dança popular divertida.> Por momentos faz-se escuro. <3’’> Depois vêem-se os mesmos grupos e posições. Muitos dos grupos são iluminados de cima, com maior ou menor itensidade, com diversas cores: sobre um grande grupo que está sentado incide um vermelho intenso; sobre um grande grupo que está de pé cai um azul desmaiado, etc.. A luz amarela estridente (à excepção dos gigantes que aparecem agora com particular nitidez) concentra-se apenas sobre a pessoa de branco que está sentada. De repente, desaparecem todas as cores (os gigantes continuam amarelos) e uma luz branca crepuscular enche o palco. <20’’> Cores isoladas começam a dialogar na orquestra. Para lhes corresponder, levantam-se de diferentes lugares figuras isoladas: rápidas, bruscas, festivas, lentas, e começam a olhar para cima. Algumas ficam de pé. Outras voltam a sentar-se. <5’’> Depois todas são tocadas por um abatimento e tudo se imobiliza. <5’’>
[Entre as p. 16 e 17 o autor enfiou uma folha solta onde anotou. Saltos na música: “bonita” – repentina polifonia grosseira (brutal, angulosa), depois notas triunfantes, a seguir tristeza até às lágrimas, etc. a.l. música desaparecendo, [?] não mais de 3 a 5’/ diz respeito à p.17. (Boissel, 1998: 82.)
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Os gigantes sussurram. Mas também eles permanecem agora imóveis e direitos, enquanto no fundo do palco se torna audível o coro seco que se faz ouvir apenas por pouco tempo. <10’’>
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Depois ouvem-se de novo na orquestra cores isoladas. <a.l. não mais de 60’’> Um feixe vermelho de luz surge por cima dos rochedos e estes estremecem. <3’’> Com esta iluminação estremecem alternadamente os gigantes. <3’’>
Em algumas extremidades é perceptível um movimento. <30’’>
Na orquestra repetem-se várias vezes si e lá: separadamente, soando em conjunto, ora muito fortes, ora quase inaudíveis.*
Diversas pessoas abandonam os seus lugares e dirigem-se para outros grupos, ora depressa, ora devagar. Os que estão sozinhos formam pequenos grupos de duas ou três pessoas ou enquadram-se em grupos maiores. Os grandes grupos desintegram-se. Algumas pessoas põem-se a correr para fora do palco, olhando sempre à volta. Entre elas desaparecem todas as pessoas de preto, cinzento e branco. No palco acabam por ficar apenas as pessoas coloridas. <60 a 80’’> <Os feixes de luz desaparecem.>
A pouco e pouco generaliza-se um movimento arrítmico. Na orquestra impera a confusão. O grito estridente do 3o quadro torna- se audível. Os gigantes tremem. Diversos focos de luz varrem o palco cruzando-se. <30’’>
Grupos inteiros abandonam o palco. Tem origem uma dança generalizada: começa em lugares diversos, espalha-se a pouco e pouco e arrasta todas as pessoas. Corridas, saltos, corridas como aproximação e dispersão, quedas. De pé, uma quantidade de pessoas move apenas os braços com rapidez, outras apenas as pernas, apenas a cabeça, apenas o tronco. Outras combinam todos estes movimentos. À s v e z e s são movimentos de grupo. Grupos inteiros fazem à s v e z e s um e o mesmo movimento. <30’’>
No momento em que se atinge a maior confusão na orquestra, nos movimentos e na iluminação, faz-se d e r e p e n t e escuro e silêncio. Só ao fundo do palco continuam a ser visíveis os gigantes amarelos que lentamente vão sendo engolidos pela escuridão. Parece que os gigantes se apagam como candeeiros, ou seja, no meio da completa escuridão a luz relampeja algumas vezes. <40’’>
* [Esta anotação do autor encontra-se em pé de página:] Alternadamente, durante períodos de tempo irregulares, feixes de luz caem sobre diferentes grupos: vermelho, vermelho, vermelho, azul, vermelho, azul, azul, etc. por vezes dois ou três em conjunto. Como abelhas sobre as flores, a sugarem-lhes o pólen. (Boissel, 1998: 84.)
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6o QUADRO
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(Este quadro tem de surgir t ã o d e p r e s a q u a n t o p o s s í v e l).
Fundo azul mate como no 1o quadro (sem as margens pretas).
No meio do palco, gigante amarelo claro com um rosto branco indistinto, grandes olhos pretos e redondos. Fundo e chão pretos.
Ele levanta ambos os braços devagar, ao longo do corpo, (as palmas das mãos para baixo) e eleva-se em altura.
No momento em que atinge a altura do palco e a sua figura se assemelha a uma cruz, faz-se escuro d e r e p e n t e. A música é expressiva, assemelhando-se ao que acontece no palco.*
* [Para o 6o quadro, o autor tinha igualmente sugerido, em relação ao Almanaque do Cavaleiro Azul, correcções que o editor não aceitou. Estas correcções manuscritas encontram-se numa folha solta Arquivos Kandinsky, Paris). Elas dizem respeito aos três últimos parágrafos, cf. Fig. 6, p. 85.] (Boissel, 1998: 86)
{Fundo e chão pretos}
Verticalmente cai sobre ele um feixe de luz amarelo limão de intensidade média.
[Fim do parágrafo seguinte.]
O feixe de luz amarelo torna-se cada vez mais intenso e mais abrangente, englobando também os braços que se elevam. O gigante dissolve-se quase completamente nesta luz. É preciso que nesta altura o movimento, a cor e a música caminhem de facto em paralelo e construam um final calmo. Muito amplo!

[Sobre uma folha solta, acrescentada ao texto (cf. Fig. 6), coberta de notas na página da frente e verso, o autor comenta o fim desta composição para palco como se segue:]
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<Final ao contrário de toda a acção muito ampla! O amarelo eleva os braços e a música deve ser calma, solene, um pouco supra- sensível (aquilo que aqui se alcança não é de natureza terrestre, mas
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supra-terrestre,17 como um processo natural como se fosse uma nuvem que evolui lentamente, de forma determinada, fria, objectiva e ampla (largo! largo!), não no sentido de um qualquer estado de espírito, mas no sentido de uma acção objectiva). A m[ú]s[i]ca [?] é semelhante à da introdução, imprecisa, dilacerada, com interrupções, cheia de respirações (como uma libertação esforço natural caótico, tensão só Deus sabe como se desfaz a tensão!)
[20 verso]
Depois vem o canto sem temperamento (o contrário da libertação) como um vento de força média atravessando a floresta: ALGUÉM fala aqui objectivamente, i. e., sem sentimento pessoal em relação a um facto estabelecido.>