domingo, 30 de setembro de 2018

Sonoridade Amarela, de Kandinsky


A sonoridade amarela, de W. Kandinsky
Uma composição Cênica[1]

Tradução Marcus Mota

Agentes
Cinco gigantes
Seres indefinidos
Tenor ( na coxia)
Uma criança
Um homem
Pessoas com vestes soltas
Pessoas usando collants
Coro (na coxia)

Abertura
Alguns acordes da orquestra.
(sob cortina)
Em cena, temos um crepúsculo azul-escuro que de início tende ao esbranquiçado e que depois se torna um azul escuro mais intenso.  Em seguida, uma pequena luz se manifesta no centro, fazendo-se cada vez mais brilhante enquanto a cor azul obscurece. Depois um tempo, música vem da orquestra. Pausa.
Da coxia, ouve-se um coro que deve ser alocado ali para que a fonte do som não seja identificada[2]. As vozes mais graves vão se ouvir com mais destaque. O canto é regular, sem afetividade, com interrupções indicadas por reticências[3].

 VOZES GRAVES
 “Sonhos de pedra ....   e rochas falantes ...
Ressoam perguntas cheias de enigmas ...
O movimento do céu ... e a fusão ... das pedras.
Ergue-se invisível ... um muro ...”

VOZES AGUDAS
“Lágrimas e risos ...  Para maldições, orações...
A alegria da união e as batalhas mais escuras. ”
TODOS
“Luz trevosa no ... mais ensolarado ... dia.
(desaparecendo veloz e repentinamente)
Brilha sombra luminosa na noite mais escura!! ”
Fade out. Blecaute. Pausa mais longa. Em seguida, abertura da orquestra.

Quadro 1
(À direita e esquerda do espectador)
A área de atuação deverá estender-se até o fim do palco o máximo que der. Lá ao fundo, uma extensa colina verde. Atrás da colina, uma cortina lisa, opaca, azul, de um tom bem escuro.
Em seguida começa a música, inicialmente em frequências agudas. Após, passa imediatamente para as mais graves. Ao mesmo tempo, o fundo de cena muda para azul escuro (em sincronia com a música) e nele surgem bordas negras (como em um quadro). Da coxia ouve-se um coro sem palavras, que canta sem emoções, seco, mecânico. Ao final do canto do coro, uma pausa geral: nenhum movimento, nenhum som. Daí blecaute.
Após, a cena se ilumina. Da direita para a esquerda, cinco gigantes (os maiores possíveis) de um amarelo muito vivo são empurrados para o palco ( como se flutuassem sobre o piso).
Eles ficam imóveis ao fundo, um do lado do outro –uns com os ombros erguidos, outros com os ombros caídos, todos com estranhos e indefinidos rostos amarelos.
Viram o rosto uns para os outros bem lentamente, fazendo movimentos simples com os braços.
A música se torna mais definida.
Então se ouve o canto sem palavras e em baixa frequência em pianissimo (pp) dos Gigantes e eles vão se aproximando bem lentamente do centro do palco[4]. Voam velozes da esquerda para a direita umas criaturas vermelhas indefinidas, que assemelham um pouco a pássaros, e que têm cabeças grandes parecidas com as de seres humanos. Este voo se reflete na música.
Os gigantes continuam cantando, com frequências mais graves. Ao mesmo tempo, tornam-se cada vez menos visíveis[5].  A colina ao fundo cresce lentamente e vai se tornando mais nítida. Ao fim, está branca. O céu, totalmente escuro. 
Da coxia novamente se escuta o coro opaco. Não se ouve mais os gigantes.
A boca-de-cena torna-se azul e aos poucos menos brilhante.
A orquestra luta com o coro e o vence.
Uma névoa densa torna toda a cena invisível.

Quadro 2
Pouco a pouco a névoa desaparece e a luz vai irrompendo, completamente branca e intensa. Ao fundo, uma colina o maior possível, verde brilhante, muito redonda.
O fundo violeta, bem claro.
A música é estridente, tempestuosa, com repetições constantes de e si e si e lá bemol. Essas sons isolados são finalmente engolidos pelo ruidosa música em volta. De repente, silêncio total. Pausa. Novamente os gemidos e si mas de uma forma firme e nítida. Isso dura muito tempo. Depois, uma nova pausa.
Nesse momento, o fundo adquire uma cor marrom suja. A colina, verde sujo. E bem no centro da colina forma-se uma macha negra indefinível, que aparece ora mais brilhante, ora menos definida. Cada vez que a nitidez da mancha altera, a luz branca vai se tornando mais cinza. De repente, sobre a colina, à esquerda, uma grande flor amarela. De longe parece com um pepino retorcido, e vai se tornando cada vez mais brilhante. O talo é longo e fino. Uma única folha espinhosa cresce a partir do centro do talo, virada para o lado. Longa pausa.
Após, em silêncio total, a flor se balança bem lentamente da direita pra a esquerda. Depois, a folha também, mas não ao mesmo tempo. Mais ainda, ambas balançam em ritmos diferentes. Então, outra vez mas individualmente. No movimento da flor ressoa um si bem suave, no movimento da folha, um bem grave. Depois, balançam juntas, e seus sons ressoam ao mesmo tempo. A flor agita-se forte e fica imóvel. Na música, ambas as notas seguem ressoando. Ao mesmo tempo, entram pela esquerda um grupo de pessoas com vestes soltas, longas e sem formas e brilhantes ( um de azul, outro de vermelho, um outro de verde, etc. não há somente o amarelo). Essas pessoas levam em suas mãos umas flores bem grandes e brancas, parecidas com a flor da colina. Elas se mantêm o mais próximas umas das outras, passam perto da colina e param do lado direito da cena, umas quase que em cima das outras. Elas falam misturando suas vozes e recitam o seguinte:

“As flores cobrem tudo, cobrem tudo, cobrem tudo.
Feche os olhos! Feche os olhos!
Vemos, nós vemos.
Cobrir com inocência a concepção.
Abram os olhos! Abra os olhos !
Acabou. Acabou.”

De início, dizem isso todos junto, como em êxtase ( bem claramente). Depois, repetem o mesmo individualmente: uns para os outros e para os distantes, vozes de contralto, baixo e soprano. Quando recitam  “Vemos, nós vemos”, ressoa o si; quando recitam “Acabou. Acabou.”, ressoa o . Algumas vezes a voz fica mais rouca. Em outras, alguém grita como um possesso.  A voz fica nasal em outras ocasiões, ou lenta ou muito rápida em outras mais. No primeiro caso, a cena toda fica tomada por uma luz vermelha opaca. No segundo, há a alternância entre blecaute total e uma brilhante luz azul. No terceiro, de repente tudo se torna cinzento (todas as cores desaparecem!) Apenas a flor amarela brilha com uma intensidade maior ainda.
Aos pouco, começa a orquestra e seu som encobre o das vozes. A música torna-se instável, com saltos de fortissimo para pianissimo. A luz é mais clara, o que permite identificar vagamente as cores das pessoas. Umas figuras bem pequeninas, sem nitidez, de um ver cinzento indefinido, movem-se bem lentamente sobre a colina da direita para a esquerda. Elas olham para frente. Quando a primeira figura torna-se visível, a flor amarela começa a balançar como que se debatendo em convulsões. Em seguida, desaparece repentinamente, como repentinamente também as flores brancas se transformam em flores amarelas.
As pessoas caminham lentamente para a boca-de-cena como se estivesse em um sonho, e vão se afastando uma das outras cada vez mais.
A música diminui e ouvimos novamente no mesmo recitativo[6]. Em seguida as pessoas param, como que em êxtase, e se viram. Então se apercebem das pequeninas figuras que ainda passam em uma sucessão interminável sobre a colina. As pessoas se viram novamente, e se dirigem a passos rápidos para frente, param outra vez, tornam a virar e congelam, como que atadas[7]. Finalmente, as pessoas jogam as flores, as quais parece tomadas de sangue, e correm, livrando-se violentamente da imobilidade, todas juntas rumo ao mais extremo frontal da boca da cena. Olham ao redor diversas vezes[8]. Então, blecaute. De repente.
Quadro 3
Fundo da cena: duas rochas grandes marrom-vermelho, uma pontiaguda, outra arredondada e maior que a primeira. Fundo: negro. Os gigantes se encontram entre as rochas (do Quadro 1) e sussurram entre si algo que não faz muito som. Umas vezes sussurram em pares aproximando as cabeças uns dos outros. O corpo permanece sem se mover. De todos lados, em rápida alternância, caem raios de cores brilhantes (azul, vermelho, violeta e verde alternam-se diversas vezes). Depois todos esses raios se encontram no centro, e são misturados. Congela geral. Os gigantes quase não são visíveis. De repente, todas as cores desaparecem. Durante um instante, blecaute. Em seguida, uma cor amarela opaca flui pela cena e vai se tornando cada vez mais intensa, até que toda a cena é tomada de um amarelo-limão.  Como aumento da luz, a música vai diminuindo seu volume, tornando-se mais escura ( esse  movimento lembra a ação do caracol metendo-se em sua concha).Durante esses dois movimentos, nada deve ser visto em cena além de luz: nenhum objeto. A luz atingindo seu máximo brilho, a música se enfraquece completamente. Os gigantes voltam a ser visíveis, congelados, olhando para frente. As rochas desaparecem. Apenas os gigantes estão em cena agora: estão neste momento distantes uns dos outros e aparecem maiores. Fundo e chão negros. Pausa longa. De repente se escuta vindo da coxia ao fundo uma aguda voz de tenor completamente aterrorizada, que grita rapidamente palavras sem sentido(ouve-se muitas vezes : por exemplo, Kalasimunafakola!). Pausa. Fade out.
Quadro 4
À esquerda da cena, uma pequena edificação inclinada ( parecida com uma capela bem simples) sem portas ou janelas. Ao lado(saindo do telhado), uma pequena torre estreita com um pequeno sino rachado. Uma corda sai do sino. Uma criança pequena, vestida com uma camiseta branca (olhando para os espectadores) sentada no chão puxa lentamente e sempre a corda. À direita, em paralelo, um homem muito gordo, todo vestido de preto. Sua face é completamente branca, indefinida. A capela é vermelho sujo.  A torre, azul brilhante. O sino é de folha de metal. Fundo cinza, regular, liso. O homem de preto está com as pernas abertas e as mãos nos quadris.
O Homem (fala bem alto, mandando, com uma bela voz):
“Silêncio!”
A criança solta a corda. Fade out.
Quadro 5
A cena de modo gradual é imersa em uma luz vermelha fria, que vai lentamente ficando mais forte e lentamente se torna amarela. Nesse momento os Gigantes ao fundo se tornam visíveis (como no Quadro 3), assim como as rochas.
Os Gigantes voltam a sussurrar (como no Quadro 3). Quando suas cabeças estão juntas uma das outras novamente, ouve-se o mesmo grito, que vem da coxia, mas um grito muito mais rápido e breve. Blackout. O mesmo processo é repetido mais uma vez[9]. Quando a luminosidade retorna(luz branca sem sombras), os Gigantes sussurram novamente, mas agora fazendo movimentos suaves com as mãos (esses movimentos devem ser diversificados, mas suaves). De vez em quando um dos Gigantes abre e mantém os braços afastados (esse movimento pode ser apenas insinuado) e vira a cabeça um pouco para o lado, olhando para os espectadores. Por duas vezes os gigantes deixam seus braços de repente caírem ao longo do corpo, o que os torna um pouco maiores, e, sem movimento algum, olham para os espectadores. Em seguida, parece que uma espécie de convulsão toma conta de seus corpos (como a que aconteceu com a flor amarela) e voltam a cochichar, estendendo de vez em quando os braços bem suavemente, como que fazendo um lamento. A música lentamente torna-se mais intensa. Os Gigantes ficam imóveis. Um grupo de pessoas aparece da esquerda, trajando collants de cores variadas. Os cabelos de cada uma estão coloridos com a mesma cor de seus collants. Do mesmo modo seus rostos. (As pessoas parecem marionetes).Primeiro aparecem as de cinza; depois, as de negro, as de branco e, finalmente, as de colorido. Em cada grupo os movimentos são diversificados: um grupo caminha com pressa e em linha reta; outro, lentamente, como que com dificuldade; o terceiro apresenta volta e meia dá saltos graciosos; o quarto lança olhares em torno de si o tempo inteiro; o quinto chega com um andar teatral solene, cruzando os braços; o sexto vai na ponta dos pés, e mostrando a mão espalmada, etc.
Todos estão distribuídos de forma irregular pelo palco: alguns sentam-se em pequenos grupos fechados; outros, ficam sozinhos.  Da mesma forma, há alguns de pé em grupos, e outros sozinhos. Toda essa distribuição não precisa ser algo “belo”, nem muito determinado, mas não também precisa ser uma bagunça completa. As pessoas olham para diversas direções, algumas com as cabeças erguidas, outras com cabeça abaixada, quase caída.  Como que abatidas por imenso cansaço, elas raramente mudam suas posições. A luz é sempre branca. A música altera seu andamento frequentemente, e de vez em quando também se torna abatida[10]. Justamente nesse momento, um homem do grupo das de branco vindo da esquerda(bem ao fundo da cena)começa a fazer uns movimentos indefinidos com muita rapidez, umas vezes com os braços, outras com as pernas. Algumas vezes ele mantém um mesmo movimento por certo tempo e permanece na mesma posição por instantes. É como uma espécie de dança. Mas seu andamento se altera repetidas vezes, em algumas ocasiões em sincronia com a música, em outras não. (Esse procedimento simples deve ser elaborado com todo cuidado para que se produza um efeito bem expressivo e surpreendente). As demais pessoas pouco a pouco começam a olhar para o de branco. Algumas delas esticam o pescoço. Enfim, todas olham para ele. Então a dança abruptamente termina: o de branco senta-se,{...}


Quadro 6
(Este quadro deve acontecer com a maior rápido que for possível)
Fundo azul opaco, como no Quadro 1 (sem bordas escudas).
No centro do palco um gigante amarelo brilhante, com o rosto branco indefinido, olhos grandes, negros e redondos. Fundo e chão negros.
Ele levanta lentamente ambos os braços ao longo do corpo (as palmas das mãos para baixo), enquanto vai crescendo em altura.
Quando alcançar toda a altura da caixa cênica e sua figura se parecer com uma cruz, blecaute. A música é expressiva, assemelhada ao que acontece em cena.



[1] Thomas von Hartmann ficou encarregado da parte musical.
[2] NT. No original:  “welcher so eingerichtet werden muss, dass die Quelle des Gesanges nicht zu eknnen ist. ” Isto é: o coro “deve ser disposto de um jeito que não seja possível discernir a origem do canto”.
[3] NT. No original “ohne Temperament”.  No lugar de traduzir por cognato, o que levaria a questão do temperamento musical, questão sobre afinação e medição de intervalos musicais, dentro do contexto vemos que o termo se refere tentativa de se reduzir respostas emocionais na canção por meio da ênfase na equalização dos atos performativos. Assim, “sem temperamento” aqui refere-se a uma performance sem disposições mais explicitas de emoções, algo mais próximo de uma máquina.
[4] NT. No original, “Rampe”. Seria vago traduzir por “rampa”, pois no caso Kandinsky está se referindo ao lugar de destaque da área de atuação, a ribalta,  onde um fila de refletores no chão ilumina o ator.
[5] No original, “undeutlich”, “indistinto”, “vago”, “difuso”, “obscuro”, ”borrado”.
[6] Metade da frase é falada em conjunto: ao final da frase, uma voz bem indistinta. Isso se alterna diversas vezes.
[7] Esses movimentos devem ser realizados como se houvesse uma voz de comando determinando-os.
[8] Esses movimentos não precisam sem ritmizados.
[9] Naturalmente, a música também tem de ser repetida.
[10] NT. No original “hier und da wird auch sie matt”, ou “torna-se abatida também”. O adjetivo “matt” associa-se a ‘fraco’,’suave’, ‘abatido’, ‘fosco’, ‘aborrecido’. O contexto imediato aqui é a homologia (‘auch’)  entre o som da música e a ação das pessoas. As pessoas estão abatidas,exauridas, e a música de vez em quando fica também como as pessoas. O que é difícil nessa homologia é precisar em que o som adquire essa lassidão- se é no timbre ou no tempo. A música pode ralentar, ou pode ficar mais abafada, menos brilhante: opaca.

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