Nem proscênio nem bastidores; da crítica das aparências à da estrutura, Gargântua é, em última instância, um deboche ao conhecimento.
Entre exageros declarados e comedimentos inerentes ao trato social, o óbvio desafio às grandes instituições regulamentadoras - família, igreja, estado, educação, moral, política etc. - divide espaço com uma estética que descreve tempos ainda em ebulição: a insistência nos ditos contrastes, que, no fundo, expõem o mesmo.
São três grandes estruturas que dividem o livro, que, assim, segmentam a argumentação: a formação do gigante, as guerras, a abadia utópica. Em termos de forma, também elas têm as próprias características, seja o precursor do romance de formação, seja o flerte com a rapsódia. Ainda, configuram-se como um funil, a primeira parte é a maior; a última, a menor.
Assim, a própria forma de Gargântua recupera seu conteúdo. Caos sistematizado, ordem questionada. Opostos que brincam livremente entre seus terrenos.
Opostas também são as faces do conhecimento (entendido aqui em sentido lato, cultura, ciências, arte, linguagem etc.), constituinte e apartado. Tal qual o gigante, forma-se no seio de uma sociedade típica, sendo por ela alimentado, mas precisa instituir certo alheamento, responsável por legitimar seu lugar de autoridade.
O efeito lupa proporcionado pela posição do gigante também o identifica com o próprio saber. Enquanto o micro é esmiuçado, o geral se aparta, e possibilita que de tudo fale. Ainda assim, falho, pois o desfecho do funil do saber é sempre uma utopia, opondo-se à centelha de sua formação, em que tudo cai nessa grande boca. Ele não se resolve, finda-se em transitividade.
O conhecimento, essa besta-fera, é sempre o que se precisa domar, vê-se na contemporaneidade o gigante Hagrid, de J.K. Rowling, ou até matar, vê-se Golias, em prol da santa norma. Porque saber é aberração e pecado, bem digamos nós, condenados descendentes de Adão.
Internalizamos tanto a necessidade de se domar, amaciar e enjaular o gigante do saber, que a própria universidade, pretenso universo, esquiva-se claudicando entre determinadas linhas de pesquisa e normas da Capes, da ABNT, da só Deus sabe.
Rabelais despreza a linearidade que o alto saber pressupõe, bem como as supostas searas em que os saberes se apartam, juntando em um mesmo caldo história e medicina, narrativas e genealogias. E seu enciclopedismo, assim julgado por Bakhtin, revela certo deboche ao conhecimento e à futilidade de sua busca. Os eruditos detentores do saber terminam nadando em bocas de gigantes, perdidos entre a busca tão risível da seriedade. Afinal, por mais que partilhemos sofisticadas ironias sobre o sentido da vida em banquetes e tavernas, ainda peidamos.
Por último, pensando o gigante dentro da estética grotesca, ele é a desocultação da repressão animal em prol da pretensamente humana lógica de planilhas de Excel. Esses bons instintos, quando rotineiramente domados, que se sublimam em afazeres cotidianos. Assim, em última análise, o gigante também escancara feridas de interações humanas, constantemente maquiadas em guerras, identidade, religião, ativismo, futebol e churrascos de domingo regados a pagode.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Livro Gargântua link
https://pt.scribd.com/document/334198100/Rabelais-Gargantua-Ed-Europa-America-Portugal-pdf
domingo, 19 de agosto de 2018
Nascimento de Gargântua
COMO GARGÂNTUA NASCEU DE MANEIRA MUITO ESTRANHA (Cap VI)
Enquanto mantinham estas conversas acerca da bebida, Gargamelle começou a sentir dores nas partes inferiores, e Grandgousier levantou-se da relva e reconfortou-a honesta mente, pensando que fossem dores de parto, e dizendo-lhe que ela estava na relva, na Saulsaye, e que em breve lhe cresceriam pés novos, por isso convinha-lhe ganhar coragem para o aparecimento do seu pequerrucho e, mesmo que a dor a importunasse, havia de ser breve, e logo a felicidade a aliviaria daquele incómodo, de tal maneira que nem a recordação lhe ficaria.
"Coragem (dizia ele), despachai-vos deste e depressa faremos outro".
"Ah! (disse ela), é com essa facilidade que vós homens falais! Mas, por Deus, hei-de esforçar-me, se assim vos apraz. Mas tomara que o cortásseis!"
"O quê?", diz Grandgousier.
"Ah! (diz ela). Que prenda me saís! Bem sabeis!"
"O meu membro? (diz ele). Sangue de cabra! Se é isso que quereis, mandai vir uma faca."
"Ah! (diz ela) Deus em perdoe! Não é isso que eu quero e, palavra de honra, não o façais. Mas terei hoje muitos trabalhos, se Deus não me ajudar, e tudo por causa do vosso membro, que manejais habilmente."
"Coragem, coragem! (diz ele). Não vos preocupeis e deixai andar. Ainda vou beber uns cópazios, e se entretanto vos acudir alguma dor, estarei por perto. Chamai com as mãos em concha que virei ter convosco."
Pouco depois, começou ela a suspirar, a queixar-se e a gritar. De repente apareceram muitas parteiras de todos os lados e, apalpando-lhe os fundos, encontraram umas peles de muito mau gosto e pensaram que era a criança; mas era o fundamento que lhe escapava, pelo afrouxamento do recto derivado de ter comido tripas de mais, conforme acima se declarou.
Uma velha imunda do grupo, que tinha fama de ser grande médica e que viera de Brizepaille, perto de Sainct Genou, sessenta anos antes, fez-lhe um adstringente tão horrível que lhe pôs os esfíncteres tão opilados e apertados que só a muito custo, com os dentes, se poderiam alargar, o que é coisa terrível de pensar: assim o diabo, ao escrever a conversa de duas tagarelas na missa de São Martinho, esticou o seu pergaminho com os dentes.
Por este conveniente se relaxaram em cima os cotilédones da matriz, através dos quais saltou a criança, que entrou na veia cava e, subindo pelo diafragma até aos ombros (onde a dita veia se abre em duas), virou à esquerda, e saiu pela orelha do mesmo lado.
Assim que nasceu, não gritou como as outras crianças: «Mies! mies!», mas em voz alta berrava: " De beber, de beber, de beber!", como se convidasse' toda a gente a beber, de tal modo que foi ouvido por toda a região de Beusse e de Bibaroys.
Suspeito que não acreditais firmemente nesta estranha natividade. Não me importa que não acrediteis, mas um homem de bem, um homem de bom senso, acredita sempre no que lhe dizem e no que vê escrito. Acaso é contra a nossa lei, a nossa fé, contra a razão, contra as Sagradas Escrituras? Quanto a mim, não encontro nada escrito na Santa Bíblia que seja contra isso. Mas, se fosse essa a vontade de Deus, acaso diríeis que não o poderia fazer? Ah, por piedade, não atrapalheis o vosso espírito com esses vãos pensamentos, pois eu vos digo que a Deus nada é impossível e, se Ele quisesse, doravante as mulheres teriam filhos pelos ouvidos.
Baco não foi gerado pela coxa de Júpiter?
Rocquetaillade não nasceu do calcanhar da mãe?
Minerva não nasceu do cérebro pela orelha de Júpiter?
Adónis da casca de uma árvore de mirra?
Castor e Pólux da casca dum ovo, posto e chocado por Leda? Mas ainda ficaríeis mais espantados se passasse a expor-vos todo o capítulo de Plínio onde se fala dos partos estranhos e contra a natureza; e todavia não sou tão confirmadamente mentiroso como ele foi. Lede o sétimo capítulo da sua História Natural, capi. iij., e não me deis cabo do juízo.
"Coragem, coragem! (diz ele). Não vos preocupeis e deixai andar. Ainda vou beber uns cópazios, e se entretanto vos acudir alguma dor, estarei por perto. Chamai com as mãos em concha que virei ter convosco."
Pouco depois, começou ela a suspirar, a queixar-se e a gritar. De repente apareceram muitas parteiras de todos os lados e, apalpando-lhe os fundos, encontraram umas peles de muito mau gosto e pensaram que era a criança; mas era o fundamento que lhe escapava, pelo afrouxamento do recto derivado de ter comido tripas de mais, conforme acima se declarou.
Uma velha imunda do grupo, que tinha fama de ser grande médica e que viera de Brizepaille, perto de Sainct Genou, sessenta anos antes, fez-lhe um adstringente tão horrível que lhe pôs os esfíncteres tão opilados e apertados que só a muito custo, com os dentes, se poderiam alargar, o que é coisa terrível de pensar: assim o diabo, ao escrever a conversa de duas tagarelas na missa de São Martinho, esticou o seu pergaminho com os dentes.
Por este conveniente se relaxaram em cima os cotilédones da matriz, através dos quais saltou a criança, que entrou na veia cava e, subindo pelo diafragma até aos ombros (onde a dita veia se abre em duas), virou à esquerda, e saiu pela orelha do mesmo lado.
Assim que nasceu, não gritou como as outras crianças: «Mies! mies!», mas em voz alta berrava: " De beber, de beber, de beber!", como se convidasse' toda a gente a beber, de tal modo que foi ouvido por toda a região de Beusse e de Bibaroys.
Suspeito que não acreditais firmemente nesta estranha natividade. Não me importa que não acrediteis, mas um homem de bem, um homem de bom senso, acredita sempre no que lhe dizem e no que vê escrito. Acaso é contra a nossa lei, a nossa fé, contra a razão, contra as Sagradas Escrituras? Quanto a mim, não encontro nada escrito na Santa Bíblia que seja contra isso. Mas, se fosse essa a vontade de Deus, acaso diríeis que não o poderia fazer? Ah, por piedade, não atrapalheis o vosso espírito com esses vãos pensamentos, pois eu vos digo que a Deus nada é impossível e, se Ele quisesse, doravante as mulheres teriam filhos pelos ouvidos.
Baco não foi gerado pela coxa de Júpiter?
Rocquetaillade não nasceu do calcanhar da mãe?
Minerva não nasceu do cérebro pela orelha de Júpiter?
Adónis da casca de uma árvore de mirra?
Castor e Pólux da casca dum ovo, posto e chocado por Leda? Mas ainda ficaríeis mais espantados se passasse a expor-vos todo o capítulo de Plínio onde se fala dos partos estranhos e contra a natureza; e todavia não sou tão confirmadamente mentiroso como ele foi. Lede o sétimo capítulo da sua História Natural, capi. iij., e não me deis cabo do juízo.
COMO FOI DADO O NOME A GARGÂNTUAl, E COMO GOSTAVA DA PINGA ( Cap VII)
O bom Grandgousier, que bebia e folgava com os outros, ou viu o grito horrível que deu o seu filho ao vir a este mundo, quando bramia pedindo: " De beber, de beber, de beber!" E disse: "Que garganta!" Ao ouvir isto, os assistentes disseram que devia ficar com o nome de Gargântua, por terem sido essas as primeiras palavras do seu pai quando ele nasceu, segundo o exemplo dos antigos hebreus, no que este condescendeu e muito agradou à mãe. E, para o sossegar, deram-lhe de beber à farta, e levaram-no a baptizar às fontes, como é costume dos bons cristãos.
E foram-lhe dadas dezassete mil novecentas e treze vacas de Pautille e de Brehemond para o amamentar. Pois não era possível encontrar em todo o país ama suficiente, dada a grande quantidade de leite necessária para o alimentar, embora alguns doutores escotistas tenham afirmado que a sua mãe o amamentou e que podia tirar das tetas quatrocentas e duas pipas e nove jarros de leite de cada vez, o que não é verosímil, e tal afirmação foi declarada mamalmente escandalosa, ofensiva para ouvidos piedosos e tresandando a heresia.
Nesse estado chegou ele a um ano e dez meses, tempo em que, a conselho dos médicos, começaram a transportá-lo e lhe fizeram uma bonita carroça de bois inventada por Jehan Denyau. Nela o passeavam alegremente por aqui e por ali, e era uma alegria vê-lo, pois tinha boa cara e possuía quase dezoito queixos; e chorava pouco, mas cagava-se a toda a hora, pois era maravilhosamente fleumático das nádegas, tanto por compleição natural como pela disposição acidental causada por sor ver muito puré setembrino. E não lhe sorvia nem uma gota sem motivo, pois, se estava aborrecido, irado, zangado ou contrariado, se batia com os pés, chorava ou gritava, traziam-lhe de beber e ele voltava à sua natureza, pondo-se de repente quieto e alegre.
Uma das suas governantas contou-me e jurou-me que estava tão habituado a isto que só de ouvir o som das pintas e das garrafas entrava em êxtase, como se saboreasse as alegrias do paraíso. De modo que, considerando esta compleição divina e para o pôr alegre, logo pela manhã mandavam bater nos copos com uma faca diante dele, ou em frascos com a própria rolha, ou em pintas com a tampa, e ele alegrava-se com esse som, sobressaltava-se e embalava-se a si mesmo, abanando a ca beça, monocordizando com dos dedos e baritonando com o cu.
Prólogo do autor
PRÓLOGO DO AUTOR
Beberrões ilustríssimos e vós, preciosíssimos bexigosos - porque a vós e não a outros são dedicados os meus escritos - Alcibíades, no diálogo de Platão intitulado O Banquete, louvando o seu preceptor Sócrates, incontestavelmente o príncipe dos filósofos, entre outras palavras o diz semelhante aos Silenos. Os Silenos eram outrora umas caixinhas, tais como as vemos hoje nas boticas, pintadas em cima com figuras alegres e frívolas, como harpias, sátiras, pássaros com freio, lebres carnudas, patas albardadas, bodes voadores, veados entre varais e outras que tais pinturas arremedadas para provocar o riso nas pessoas (tal foi Sileno, mestre do bom Baco); mas no seu interior conservavam-se finas drogas como o bálsamo, o âmbar cinzento, o amomo, o almíscar, a civeta, pedrarias e outras coisas preciosas. Assim ele dizia ser Sócrates, porque, vendo-o por fora e apreciando-o pela aparência exterior, ninguém daria por ele uma casca de cebola, tão feio ele era de corpo e ridículo no porte, com o nariz pontiagudo, olhar de touro, o rosto de um louco, simples nos costumes, rústicos na vestimenta, pobre de fortuna, infortunado com as mulheres, inepto para todos os ofícios da república, sempre a rir, sempre a beber tanto como qualquer outro, sempre a troçar, sempre a dissimular o seu divino saber; mas, abrindo essa caixa, encontrar-se-ia dentro dela uma celeste e inapreciável droga: entendimento mais que humano, virtude maravilhosa, coragem invencível, sobriedade sem par, contentamento certo, segurança perfeita, desprezo incrível por tudo o que leva os humanos a velar, correr, trabalhar, navegar e batalhar.
A que propósito, em vossa opinião, se destina este prelúdio? E por que, meus bons discípulos, e alguns outros ociosos, ao lerdes os alegres títulos de alguns livros da nossa invenção, como Gargântua, Pantagruel, Fessepinte, A Dignidade das Braguilhas, Ervilhas com toucinho cum commento, etc., julgais muito facilmente que, por dentro, são tratados de graçolas, brincadeiras e intrujices, visto que a insígnia exterior (é o título), sem querer saber de mais nada, é correntemente acolhida como motivo de riso e chacota. Mas não é com tal leviandade que convém estimar as obras humanas. Pois vós mesmos dizeis que o hábito não faz o monge, e um qualquer vestido com o habito monacal não tem por dentro nada de monge, e outro usa capa à espanhola e a sua coragem não deve nada à Espanha. Por isso é preciso abrir o livro e pesar cuidadosamente o que nele é deduzido. Sabereis então que a droga nele contida tem muito mais valor do que a caixa prometia, isto é, que as matérias aqui tratadas não são tão galhofeiras como o título pretendia.
E, dado o acaso de encontrardes em sentido literal matérias muito alegres e correspondentes ao nome, não deveis todavia ficar por aí, como a ouvir o canto das Sereias, mas em mais alto sentido interpretar o que por acaso cuideis ser dito de coração alegre.
Já alguma vez desrolhastes uma garrafa? Irra! Recordai a vossa atitude. Mas vistes alguma vez um cão ao encontrar um osso com tutano? É, como diz Platão, liv. II da República, o mais filósofo dos animais deste mundo. Se já o vistes, pudestes notar com que devoção ele o espreita, com que fervor o guarda, com que prudência começa a roê-lo, com que afeição o parte, e com que diligência o chupa. Quem o induz a fazê-lo? Qual a esperança do seu estudo? Que bem pretende alcançar? Nada mais que um pouco de tutano. É verdade que esse pouco é mais delicioso do que o muito de todas as outras coisas, porque o tutano é um alimento elaborado com perfeição da natureza, como diz Galeno,in Fac. Natur.,II,I e Deusuparti,XI.
Segundo este exemplo, convém-vos ser sábios, para farejar, cheirar e apreciar estes belos livros saborosos, procurá-los com ligeireza e encontrá-los com ousadia; depois, na leitura curiosa e na meditação frequente, deveis abrir o osso e chupar o substancioso tutano - ou seja, o mesmo que eu quero significar com estes símbolos pitagóricos - com a esperança certa de vos tomardes avisados e valorosos com a dita leitura, pois nesta encontrareis melhor gosto e doutrina mais abscôndita, a qual vos revelará altíssimos sacramentos e horríficos mistérios, tanto no que respeita à nossa religião como ao estado político e à vida económica.
Acreditais que jamais Homero, ao escrever a Ilíada e a Odisseia, pensou nas alegorias com que as rechearam Plutarco, Heráclides Pônticos, Eustácio, Fonuto, e que Poligiano lhes roubou? Se acreditais, não vos aproximais nem com os pés nem com as mãos da minha opinião, que decreta que Homero as imaginou tão pouco como Ovídio, nas suas Metamorfoses, aos sacramentos do Evangelho, como tal Frei Lubin, verdadeiro parasita, se esforçou por demonstrar, se acaso encontrava pessoas tão tolas como ele, e (como diz o provérbio), tampa digna de tal panela.
Se não acreditais, porque não fareis o mesmo com estas alegres e novas crónicas, embora ao ditá-las eu não pensasse mais nelas do que vós, que bebeis talvez tanto como eu? Pois, na composição deste livro senhorial, não perdi nem empreguei mais nem outro tempo do que o estabelecido para tomar a minha refeição corporal, ou seja, bebendo e comendo. Chegou as sim a hora devida de escrever estas altas matérias e ciências profundas, como tão bem sabiam fazer Homero, paradigma de todos os filólogos, e Ênio, pai dos poetas latinos, conforme o testemunha Horácio, embora um malcriado tenha dito que os seus poemas cheiram mais a vinho que a óleo.
O mesmo disse um velhaco dos meus livros; mas merda para ele! Como é mais apetitoso, risonho, atraente, mais celeste e delicioso o odor do vinho do que do óleo! E acharei tão glorioso que digam de mim que gastei mais em vinho do que em óleo, como Demóstenes, quando lhe diziam que gastava mais em óleo do que em vinho. Para mim só é honra e glória ser dito e reputado bom compincha e bom companheiro, e com esse nome sou bem-vindo entre todas as boas companhias de pantagruelistas. A Demóstenes foi censurado por um espírito azedo que as suas Orações cheiravam à serapilheira de um imundo e sujo azeiteiro. Interpretai, pois, todos os meus factos e ditos no que têm de perfeição; reverenciai o cérebro caseíforme que vos distrai com estes belos disparates e, se puderdes, considerai-me sempre um homem alegre.
Pois diverti-vos, meus amores, e alegremente lede o resto, com todo o à-vontade do corpo e com vantagem para os rins! Mas escutai, ó estúpidos - que uma úlcera nas pernas vos deixe coxos! - não vos esqueçais de beber à minha saúde, e logo vos darei razão.
Trad. Tradução de Maria Gabriela de Bragança
Publicações Europa-América, p. 27-29.
Trad. Tradução de Maria Gabriela de Bragança
Publicações Europa-América, p. 27-29.
Livro I . Gargântua
A VIDA MUITO HORRÍFICA DO GRANDE GARGÂNTUA
Pai de Pantagruel
Em tempos composta por M. Alcofribas,
Em tempos composta por M. Alcofribas,
Condensador de Quinta Essência (1)
Livro cheio de Pantagruelismo
AOS LEITORES
Amigos leitores que lerdes este livro,
Livro cheio de Pantagruelismo
AOS LEITORES
Amigos leitores que lerdes este livro,
Despojai-vos de toda a paixão;
E, ao lê-lo, não vos escandalizeis:
Não contém nem mal nem infecção.
É verdade que aqui pouca perfeição
E, ao lê-lo, não vos escandalizeis:
Não contém nem mal nem infecção.
É verdade que aqui pouca perfeição
Aprendereis, a não ser para rir;
Outro assunto não pode meu coração eleger,
Outro assunto não pode meu coração eleger,
Vendo o luto que vos desgasta e consome
Melhor é escrever de riso que de lágrimas,
Pois rir é próprio do homem(2).
1-Alcofribas é o mesmo nome, anagrama abreviado de François Rabelais, que figurava nas edições do Pantagruel, a partir de 1534. - O Condensador de Quinta Essência é o Alquimista.
2- Esta célebre máxima, que se tornou o símbolo do humor rabelaisiano, é extraída de Aristóteles, De partibus animalium, III, 10: «O homem é o único dos seres animados que sabe rir"·. e encontra-se igualmente nas obras do poe ta Guillaume Bouchet, amigo de Rabelais.
Passagem de Aristóteles:
“Que apenas os entes humanos são suscetíveis às cócegas é devido à finura de sua pele e ao fato de que os entes humanos sejam os únicos animais que riem” (Partes dos animais, III, 673a, 9).
Passagem de Aristóteles:
“Que apenas os entes humanos são suscetíveis às cócegas é devido à finura de sua pele e ao fato de que os entes humanos sejam os únicos animais que riem” (Partes dos animais, III, 673a, 9).
Traduções
Temos em língua portuguesa algumas traduções:
Brasil
1- RABELAIS, F. Gargântua e Pantagruel. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1991. Tradução de David Jardim Júnior. { Contém muitas imprecisões de traduções. Traduz os cinco livros da série}
2- Gargantua . Ediouro, s/d. Tradução de Aristides Lobo.
3- Livros 3 e 4. Editora Unicamp/Ateliê editorial a tradução
comentada por Élide Valarini Oliver.
Portugal
1- Gargântua. Edições Europa-América, s/d. Tradução de Maria Gabriela de Bragança.
2- Pantaguel. Lisboa: Editora Frenesi, 1987. Tradução de Anibal Fernandes.
Grotesco na Literatura- Rabelais
François Rabelais (1483/4-1553)
Série de livros Pantaguel e Gargântua
Gargântua, pai
Pantagruel, filho
1- Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel Roi des Dipsodes, fils du Grand Géant Gargantua . {Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, Rei dos Dipsodos, filho do Grande Gigante Gargântua}. Pantagruel (1532)
2- La vie très horrifique du grand Gargantua, (1534)
3-Le tiers livre des faicts et dicts héroïques du bon Pantagruel (1546)
4-Le quart livre des faicts et dicts héroïques du bon Pantagruel (1552)
5- Le cinquiesme et dernier livre des faicts et dicts héroïques du bon Pantagruel{autoria discutida} (1564)
Edições francesas:
Filmes
Série de livros Pantaguel e Gargântua
Gargântua, pai
Pantagruel, filho
1- Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel Roi des Dipsodes, fils du Grand Géant Gargantua . {Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, Rei dos Dipsodos, filho do Grande Gigante Gargântua}. Pantagruel (1532)
2- La vie très horrifique du grand Gargantua, (1534)
3-Le tiers livre des faicts et dicts héroïques du bon Pantagruel (1546)
4-Le quart livre des faicts et dicts héroïques du bon Pantagruel (1552)
5- Le cinquiesme et dernier livre des faicts et dicts héroïques du bon Pantagruel{autoria discutida} (1564)
Edições francesas:
DEMERSON, G. (Ed.) Rabelais: Oeuvres Complètes, Edition
L’Intégrale. Paris: Seuil, 1973.
HUCHON, M. (Ed.) François Rabelais. Oeuvres Complètes.
Paris:Gallimard, 1994.
FRAGONARD, M.(Ed.).
Les Cinq Livres des Faits et Dits de Gargantua et Pantagruel. Paris:
Gallimard, 2017.
Filmes
Filme de Hervé Basié La très excellente et divertissante
histoire de François Rabelais (França, Asterina Films, 2010).
https://www.youtube.com/watch?v=pGbh2q1lohE
Gargantua lu par philippe noiret et jacques villeret
Link: https://www.youtube.com/watch?v=Wsmzb3xxKC0
Refeição de Pantagruel.
Gustave Dore. Gravura por Paul Jonnard-Pac
Gustave Dore. Gravura por Paul Jonnard-Pac
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
Críticas ao grotesco
Vitrúvio (80-70 a.C - 15 a.C.)
De Architectura, livro 7, Capítulo V, "A decadência da pintura mural (Afresco)"
Link: http://www.civil.ist.utl.pt/~hrua/Publica/Vitruvio.pdf
https://pt.scribd.com/document/239669381/Tratado-de-Arquitetura-Vitruvio-Martins-Fontes-pdf
(1)Nos outros compartimentos, sejam eles de primavera, de outono ou de verão, e também dos átrios e nos peristilos, foram constituídas pelos antigos normas concretas de pintura a partir de determinadas realidades. Com efeito, a pintura apresenta-nos a imagem daquilo que é ou pode ser, tais como homens, edifícios, naves, bem como todas as coisas restantes de cujos corpos harmoniosos e distintos se retiram exemplo de figurada semelhança. Por isso, os antigos instituíram os princípios dos acabamentos imitaram primeiro as variedades e aplicações da placas de mármore e, depois, das várias distribuições das cornijas, molduras e bandas separadoras.
(2)Posteriormente, dedicaram-se a imitar também as figuras dos edifícios, as saliências proeminentes das colunas e dos frontões; em lugares ao ar livre, como êxedras, devido ao tamanho das paredes, desenharam frontes de cena segundo os gêneros trágico, cômico ou satírico. Nos passeios portificados, por causa dos espaços em profundidade, representaram variedades de paisagens, monstrando figurações com características de determinados locais: desse modo se pintam portos, promontórios, litorais, fontes, canais, templos, bosques, montes, rebanhos, pastores, assim como, em alguns lugares, grandes quadros de figuras representando imagens dos deuses o sequencias ordenadas das fábulas, como as guerras troianas ou as andanças de Ulisses através das paisagens, e outras coisas que, como essas, são produzidas pela natureza das coisas.
(3)Todavia, esses modelos que se retiravam de coisas reais são hoje considerados de mau gosto. Com efeito, nos estuques pintam-se mais monstros do que imagens determinadas de coisas concretam: pois ali se levantam caniços em lugar de colunas e em vez de frontões, varinhas estriadas com folhas ondeadas e enrolamentos, bem como candelabros que sustem imagens de edículas sobre cujos frontões surgem, a partir de raízes com volutas, tenras flores que apresentam estatuetas sentadas sem qualquer lógica. Isso sem falar dos caulículos que têm figurinhas que têm figurinhas partidas ao meio, umas com cabeças humanas, outras com cabeças de animais.
(4)Pois essas coisas não existem, nem se podem fazer, nem nunca existiram. Por isso , os novos gostos levaram a que maus juízes neglicenciassem a perfeição das artes. De que maneira, com efeito, pode um caniço aguentar verdadeiramente um teto, ou um candelabro suster os ornamentos de um frontão, ou como um caulículo tão fino e mole pode sustentar uma estatueta sentada, ou a partir de que raízes e caulículos podem criar-se seja flores, seja figurinhas divididas ao meio? E vendo os homens essas coisas falsas, não criticam, antes se deleitam, sem se interrogarem se algo nelas pode ou não ser real. E as mente obscurecidas por esses inconsistentes juízos não têm a capacidade de provar com autoridade e lógica de conveniência o que pode ser real. É que, de fato, não devem ser aprovadas as pinturas que não são semelhantes à realidade, nem, se são tornadas elegantes pela arte, delas se deve logo julgar favoravelmente, a não que se se apresentem determinadas razões justificativas aplicadas sem contradições.
W> Kayser
"Os grotescos de Rafael pareciam criar um domínio particular do livre jogo de fantasia. {...} Nós, porém, verificamos que , no tocante à essência do grotesco, não se trata de um domínio próprio, sem outros compromissos e um fantasiar totalmente livre(que não existe). O mundo do grotesco é o nosso mundo - e não o é. O horror, mesclado ao sorriso, tem seu fundamento justamente na experiência de que nosso mundo confiável e aparentemente arrimado numa ordem bem firme, se alheia sob a irrupção de poderes abismais, se desarticula nas juntas e nas formas e se dissolve em suas ordenações" O grotesco, p. 40
De Architectura, livro 7, Capítulo V, "A decadência da pintura mural (Afresco)"
Link: http://www.civil.ist.utl.pt/~hrua/Publica/Vitruvio.pdf
https://pt.scribd.com/document/239669381/Tratado-de-Arquitetura-Vitruvio-Martins-Fontes-pdf
(1)Nos outros compartimentos, sejam eles de primavera, de outono ou de verão, e também dos átrios e nos peristilos, foram constituídas pelos antigos normas concretas de pintura a partir de determinadas realidades. Com efeito, a pintura apresenta-nos a imagem daquilo que é ou pode ser, tais como homens, edifícios, naves, bem como todas as coisas restantes de cujos corpos harmoniosos e distintos se retiram exemplo de figurada semelhança. Por isso, os antigos instituíram os princípios dos acabamentos imitaram primeiro as variedades e aplicações da placas de mármore e, depois, das várias distribuições das cornijas, molduras e bandas separadoras.
(2)Posteriormente, dedicaram-se a imitar também as figuras dos edifícios, as saliências proeminentes das colunas e dos frontões; em lugares ao ar livre, como êxedras, devido ao tamanho das paredes, desenharam frontes de cena segundo os gêneros trágico, cômico ou satírico. Nos passeios portificados, por causa dos espaços em profundidade, representaram variedades de paisagens, monstrando figurações com características de determinados locais: desse modo se pintam portos, promontórios, litorais, fontes, canais, templos, bosques, montes, rebanhos, pastores, assim como, em alguns lugares, grandes quadros de figuras representando imagens dos deuses o sequencias ordenadas das fábulas, como as guerras troianas ou as andanças de Ulisses através das paisagens, e outras coisas que, como essas, são produzidas pela natureza das coisas.
(3)Todavia, esses modelos que se retiravam de coisas reais são hoje considerados de mau gosto. Com efeito, nos estuques pintam-se mais monstros do que imagens determinadas de coisas concretam: pois ali se levantam caniços em lugar de colunas e em vez de frontões, varinhas estriadas com folhas ondeadas e enrolamentos, bem como candelabros que sustem imagens de edículas sobre cujos frontões surgem, a partir de raízes com volutas, tenras flores que apresentam estatuetas sentadas sem qualquer lógica. Isso sem falar dos caulículos que têm figurinhas que têm figurinhas partidas ao meio, umas com cabeças humanas, outras com cabeças de animais.
(4)Pois essas coisas não existem, nem se podem fazer, nem nunca existiram. Por isso , os novos gostos levaram a que maus juízes neglicenciassem a perfeição das artes. De que maneira, com efeito, pode um caniço aguentar verdadeiramente um teto, ou um candelabro suster os ornamentos de um frontão, ou como um caulículo tão fino e mole pode sustentar uma estatueta sentada, ou a partir de que raízes e caulículos podem criar-se seja flores, seja figurinhas divididas ao meio? E vendo os homens essas coisas falsas, não criticam, antes se deleitam, sem se interrogarem se algo nelas pode ou não ser real. E as mente obscurecidas por esses inconsistentes juízos não têm a capacidade de provar com autoridade e lógica de conveniência o que pode ser real. É que, de fato, não devem ser aprovadas as pinturas que não são semelhantes à realidade, nem, se são tornadas elegantes pela arte, delas se deve logo julgar favoravelmente, a não que se se apresentem determinadas razões justificativas aplicadas sem contradições.
W> Kayser
"Os grotescos de Rafael pareciam criar um domínio particular do livre jogo de fantasia. {...} Nós, porém, verificamos que , no tocante à essência do grotesco, não se trata de um domínio próprio, sem outros compromissos e um fantasiar totalmente livre(que não existe). O mundo do grotesco é o nosso mundo - e não o é. O horror, mesclado ao sorriso, tem seu fundamento justamente na experiência de que nosso mundo confiável e aparentemente arrimado numa ordem bem firme, se alheia sob a irrupção de poderes abismais, se desarticula nas juntas e nas formas e se dissolve em suas ordenações" O grotesco, p. 40
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Rafael
Afrescos no segundo andar
Loggia do Pope Leo X, no Vaticano.
V. também:
http://albertis-window.com/2014/04/raphaels-studio-graffiti-and-grotesques-at-the-vatican/
WILLIAMS, R. Raphael and the Redefinition of Art in Renaissance Italy. Cambridge University Press, 2017.
Loggia do Pope Leo X, no Vaticano.
V. também:
http://albertis-window.com/2014/04/raphaels-studio-graffiti-and-grotesques-at-the-vatican/
"gavinhas que se enroscam e se desenroscam, e de cuja
folhagem brotam por toda parte animais (de modo que
pareçam suspensas as diferenças entre plantas e animais);
delicadas linhas verticais nas paredes laterais, que têm de
suportar ora uma máscara, ora um candelabro, ora um
templo (de tal maneira que o princípio da estática é levado
ao absurdo (KAYSER,2003, p. 18). "
WILLIAMS, R. Raphael and the Redefinition of Art in Renaissance Italy. Cambridge University Press, 2017.
DOMUS AUREA ( CASA DOURADA) de Nero 64. a. D.
Reconstrução
Complexo arquitetônicos com palácio com mais de trezentas salas, lago, e paisagem.
Link: https://www.realmofhistory.com/2016/03/21/animation-shows-3d-domus-aurea-golden-house/
Após a morte de Nero, o palácio foi soterrado e uma casa de banho construída em cima. Damnatio Memoriae.
Redescoberto quando um jovem romano caiu em uma caverna (grotta), em 1480. Chamou atenção da época os diversos afrescos, pinturas murais, do quarto período romano, mais caótico e excessivo.
Muitos artistas visitara as ruínas, deixando seus graffiti nas paredes, como Rafael, Michelangelo, e depois Casanova e Marquês de Sade.
Visita às ruínas.
http://www.romapravoce.com/visitar-domus-aurea-casa-dourada-do-imperador-nero/
Grotescos ali encontrados
http://www.shueda.com/2011/11/the-fine-art-of-grotesques/
DACOS,N. La Découverte de la Domus Aurea et La Formation des Grotesques a la Renaissance.London: The Warburg Institute, 1969.
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