domingo, 19 de agosto de 2018

Prólogo do autor



PRÓLOGO DO AUTOR 



Beberrões ilustríssimos e vós, preciosíssimos bexigosos - porque a vós e não a outros são dedicados os meus escritos - Alcibíades, no diálogo de Platão intitulado O Banquete, louvan­do o seu preceptor Sócrates, incontestavelmente o príncipe dos filósofos, entre outras palavras o diz semelhante aos Silenos. Os Silenos eram outrora umas caixinhas, tais como as vemos hoje nas boticas, pintadas em cima com figuras alegres e frívolas, como harpias, sátiras, pássaros com freio, lebres carnudas, pa­tas albardadas, bodes voadores, veados entre varais e outras que tais pinturas arremedadas para provocar o riso nas pes­soas (tal foi Sileno, mestre do bom Baco); mas no seu interior conservavam-se finas drogas como o bálsamo, o âmbar cin­zento, o amomo, o almíscar, a civeta, pedrarias e outras coisas preciosas. Assim ele dizia ser Sócrates, porque, vendo-o por fo­ra e apreciando-o pela aparência exterior, ninguém daria por ele uma casca de cebola, tão feio ele era de corpo e ridículo no porte, com o nariz pontiagudo, olhar de touro, o rosto de um lou­co, simples nos costumes, rústicos na vestimenta, pobre de fortu­na, infortunado com as mulheres, inepto para todos os ofícios da república, sempre a rir, sempre a beber tanto como qualquer outro, sempre a troçar, sempre a dissimular o seu divino saber; mas, abrindo essa caixa, encontrar-se-ia dentro dela uma ce­leste e inapreciável droga: entendimento mais que humano, virtude maravilhosa, coragem invencível, sobriedade sem par, contentamento certo, segurança perfeita, desprezo incrível por tudo o que leva os humanos a velar, correr, trabalhar, nave­gar e batalhar. 

A que propósito, em vossa opinião, se destina este prelúdio? E por que, meus bons discípulos, e alguns outros ociosos, ao ler­des os alegres títulos de alguns livros da nossa invenção, como Gargântua, Pantagruel, Fessepinte, A Dignidade das Bragui­lhas, Ervilhas com toucinho cum commento, etc., julgais muito facilmente que, por dentro, são tratados de graçolas, brinca­deiras e intrujices, visto que a insígnia exterior (é o título), sem querer saber de mais nada, é correntemente acolhida como motivo de riso e chacota. Mas não é com tal leviandade que convém estimar as obras humanas. Pois vós mesmos di­zeis que o hábito não faz o monge, e um qualquer vestido com o habito monacal não tem por dentro nada de monge, e outro usa capa à espanhola e a sua coragem não deve nada à Espanha. Por isso é preciso abrir o livro e pesar cuidadosamente o que ne­le é deduzido. Sabereis então que a droga nele contida tem mui­to mais valor do que a caixa prometia, isto é, que as matérias aqui tratadas não são tão galhofeiras como o título pretendia.


E, dado o acaso de encontrardes em sentido literal matérias muito alegres e correspondentes ao nome, não deveis todavia fi­car por aí, como a ouvir o canto das Sereias, mas em mais alto sentido interpretar o que por acaso cuideis ser dito de coração alegre. 

Já alguma vez desrolhastes uma garrafa? Irra! Recordai a vossa atitude. Mas vistes alguma vez um cão ao encontrar um osso com tutano? É, como diz Platão, liv. II da República, o mais filósofo dos animais deste mundo. Se já o vistes, pudestes notar com que devoção ele o espreita, com que fervor o guarda, com que prudência começa a roê-lo, com que afeição o parte, e com que diligência o chupa. Quem o induz a fazê-lo? Qual a espe­rança do seu estudo? Que bem pretende alcançar? Nada mais que um pouco de tutano. É verdade que esse pouco é mais delicio­so do que o muito de todas as outras coisas, porque o tutano é um alimento elaborado com perfeição da natureza, como diz Galeno,in Fac. Natur.,II,I e Deusuparti,XI. 

Segundo este exemplo, convém-vos ser sábios, para fare­jar, cheirar e apreciar estes belos livros saborosos, procurá-los com ligeireza e encontrá-los com ousadia; depois, na leitura curiosa e na meditação frequente, deveis abrir o osso e chupar o substancioso tutano - ou seja, o mesmo que eu quero significar com estes símbolos pitagóricos - com a esperança certa de vos tomardes avisados e valorosos com a dita leitura, pois nesta encontrareis melhor gosto e doutrina mais abscôndita, a qual vos revelará altíssimos sacramentos e horríficos mistérios, tanto no que respeita à nossa religião como ao estado político e à vida económica. 

Acreditais que jamais Homero, ao escrever a Ilíada e a Odisseia, pensou nas alegorias com que as rechearam Plutar­co, Heráclides Pônticos, Eustácio, Fonuto, e que Poligiano lhes roubou? Se acreditais, não vos aproximais nem com os pés nem com as mãos da minha opinião, que decreta que Homero as imaginou tão pouco como Ovídio, nas suas Metamorfoses, aos sacramentos do Evangelho, como tal Frei Lubin, verda­deiro parasita, se esforçou por demonstrar, se acaso encontra­va pessoas tão tolas como ele, e (como diz o provérbio), tampa digna de tal panela. 
Se não acreditais, porque não fareis o mesmo com estas ale­gres e novas crónicas, embora ao ditá-las eu não pensasse mais nelas do que vós, que bebeis talvez tanto como eu? Pois, na composição deste livro senhorial, não perdi nem empreguei mais nem outro tempo do que o estabelecido para tomar a mi­nha refeição corporal, ou seja, bebendo e comendo. Chegou as­ sim a hora devida de escrever estas altas matérias e ciências profundas, como tão bem sabiam fazer Homero, paradigma de todos os filólogos, e Ênio, pai dos poetas latinos, conforme o testemunha Horácio, embora um malcriado tenha dito que os seus poemas cheiram mais a vinho que a óleo. 

O mesmo disse um velhaco dos meus livros; mas merda para ele! Como é mais apetitoso, risonho, atraente, mais celeste e delicioso o odor do vinho do que do óleo! E acharei tão glorioso que digam de mim que gastei mais em vinho do que em óleo, como Demóstenes, quando lhe diziam que gastava mais em óleo do que em vinho. Para mim só é honra e glória ser dito e re­putado bom compincha e bom companheiro, e com esse nome sou bem-vindo entre todas as boas companhias de pantagruelistas. A Demóstenes foi censurado por um espírito azedo que as suas Orações cheiravam à serapilheira de um imundo e su­jo azeiteiro. Interpretai, pois, todos os meus factos e ditos no que têm de perfeição; reverenciai o cérebro caseíforme que vos dis­trai com estes belos disparates e, se puderdes, considerai-me sempre um homem alegre. 

Pois diverti-vos, meus amores, e alegremente lede o resto, com todo o à-vontade do corpo e com vantagem para os rins! Mas escutai, ó estúpidos - que uma úlcera nas pernas vos dei­xe coxos! - não vos esqueçais de beber à minha saúde, e logo vos darei razão.

Trad. Tradução de Maria Gabriela de Bragança
Publicações Europa-América,  p. 27-29. 

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