domingo, 19 de agosto de 2018

Nascimento de Gargântua



COMO GARGÂNTUA NASCEU DE MANEIRA MUITO ESTRANHA  (Cap VI)

Enquanto mantinham estas conversas acerca da bebida, Gargamelle começou a sentir dores nas partes inferiores, e Grandgousier levantou-se da relva e reconfortou-a honesta­ mente, pensando que fossem dores de parto, e dizendo-lhe que ela estava na relva, na Saulsaye, e que em breve lhe cresce­riam pés novos, por isso convinha-lhe ganhar coragem para o aparecimento do seu pequerrucho e, mesmo que a dor a impor­tunasse, havia de ser breve, e logo a felicidade a aliviaria daquele incómodo, de tal maneira que nem a recordação lhe fi­caria.
"Coragem (dizia ele), despachai-vos deste e depressa fare­mos outro".
"Ah! (disse ela), é com essa facilidade que vós homens fa­lais! Mas, por Deus, hei-de esforçar-me, se assim vos apraz. Mas tomara que o cortásseis!"
"O quê?", diz Grandgousier.
"Ah! (diz ela). Que prenda me saís! Bem sabeis!"
"O meu membro? (diz ele). Sangue de cabra! Se é isso que quereis, mandai vir uma faca."
"Ah! (diz ela) Deus em perdoe! Não é isso que eu quero e, pa­lavra de honra, não o façais. Mas terei hoje muitos trabalhos, se Deus não me ajudar, e tudo por causa do vosso membro, que manejais habilmente."
"Coragem, coragem! (diz ele). Não vos preocupeis e deixai andar. Ainda vou beber uns cópazios, e se entretanto vos acudir alguma dor, estarei por perto. Chamai com as mãos em concha que virei ter convosco."
Pouco depois, começou ela a suspirar, a queixar-se e a gri­tar. De repente apareceram muitas parteiras de todos os lados e, apalpando-lhe os fundos, encontraram umas peles de muito mau gosto e pensaram que era a criança; mas era o fundamen­to que lhe escapava, pelo afrouxamento do recto derivado de ter comido tripas de mais, conforme acima se declarou.

Uma velha imunda do grupo, que tinha fama de ser grande médica e que viera de Brizepaille, perto de Sainct Genou, ses­senta anos antes, fez-lhe um adstringente tão horrível que lhe pôs os esfíncteres tão opilados e apertados que só a muito custo, com os dentes, se poderiam alargar, o que é coisa terrível de pensar: assim o diabo, ao escrever a conversa de duas tagare­las na missa de São Martinho, esticou o seu pergaminho com os dentes.

Por este conveniente se relaxaram em cima os cotilédones da matriz, através dos quais saltou a criança, que entrou na veia cava e, subindo pelo diafragma até aos ombros (onde a di­ta veia se abre em duas), virou à esquerda, e saiu pela orelha do mesmo lado.

Assim que nasceu, não gritou como as outras crianças: «Mies! mies!», mas em voz alta berrava: " De beber, de beber, de beber!", como se convidasse' toda a gente a beber, de tal modo que foi ouvido por toda a região de Beusse e de Bibaroys.

Suspeito que não acreditais firmemente nesta estranha na­tividade. Não me importa que não acrediteis, mas um homem de bem, um homem de bom senso, acredita sempre no que lhe di­zem e no que vê escrito. Acaso é contra a nossa lei, a nossa fé, contra a razão, contra as Sagradas Escrituras? Quanto a mim, não encontro nada escrito na Santa Bíblia que seja contra isso. Mas, se fosse essa a vontade de Deus, acaso diríeis que não o po­deria fazer? Ah, por piedade, não atrapalheis o vosso espírito com esses vãos pensamentos, pois eu vos digo que a Deus nada é impossível e, se Ele quisesse, doravante as mulheres teriam filhos pelos ouvidos.
Baco não foi gerado pela coxa de Júpiter?
Rocquetaillade não nasceu do calcanhar da mãe?
Minerva não nasceu do cérebro pela orelha de Júpiter?
Adónis da casca de uma árvore de mirra?
Castor e Pólux da casca dum ovo, posto e chocado por Leda? Mas ainda ficaríeis mais espantados se passasse a expor-vos todo o capítulo de Plínio onde se fala dos partos estranhos e contra a natureza; e todavia não sou tão confirmadamente  mentiroso como ele foi. Lede o sétimo capítulo da sua História Natural, capi. iij., e não me deis cabo do juízo.



COMO FOI DADO O NOME A GARGÂNTUAl, E COMO GOSTAVA DA PINGA ( Cap VII)

O bom Grandgousier, que bebia e folgava com os outros, ou­ viu o grito horrível que deu o seu filho ao vir a este mundo, quando bramia pedindo: " De beber, de beber, de beber!" E dis­se: "Que garganta!" Ao ouvir isto, os assistentes disseram que devia ficar com o nome de Gargântua, por terem sido essas as primeiras palavras do seu pai quando ele nasceu, segundo o exemplo dos antigos hebreus, no que este condescendeu e muito agradou à mãe. E, para o sossegar, deram-lhe de beber à farta, e levaram-no a baptizar às fontes, como é costume dos bons cristãos.

E foram-lhe dadas dezassete mil novecentas e treze vacas de Pautille e de Brehemond para o amamentar. Pois não era possível encontrar em todo o país ama suficiente, dada a gran­de quantidade de leite necessária para o alimentar, embora al­guns doutores escotistas tenham afirmado que a sua mãe o amamentou e que podia tirar das tetas quatrocentas e duas pipas e nove jarros de leite de cada vez, o que não é verosímil, e tal afirmação foi declarada mamalmente escandalosa, ofensi­va para ouvidos piedosos e tresandando a heresia.

Nesse estado chegou ele a um ano e dez meses, tempo em que, a conselho dos médicos, começaram a transportá-lo e lhe fizeram uma bonita carroça de bois inventada por Jehan De­nyau. Nela o passeavam alegremente por aqui e por ali, e era uma alegria vê-lo, pois tinha boa cara e possuía quase dezoito queixos; e chorava pouco, mas cagava-se a toda a hora, pois era maravilhosamente fleumático das nádegas, tanto por com­pleição natural como pela disposição acidental causada por sor­ ver muito puré setembrino. E não lhe sorvia nem uma gota sem motivo, pois, se estava aborrecido, irado, zangado ou contrariado, se batia com os pés, chorava ou gritava, traziam-lhe de beber e ele voltava à sua natureza, pondo-se de repente quie­to e alegre.

Uma das suas governantas contou-me e jurou-me que esta­va tão habituado a isto que só de ouvir o som das pintas e das garrafas entrava em êxtase, como se saboreasse as alegrias do paraíso. De modo que, considerando esta compleição divina e para o pôr alegre, logo pela manhã mandavam bater nos copos com uma faca diante dele, ou em frascos com a própria rolha, ou em pintas com a tampa, e ele alegrava-se com esse som, sobressaltava-se e embalava-se a si mesmo, abanando a ca­ beça, monocordizando com dos dedos e baritonando com o cu.

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