quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Críticas ao grotesco

Vitrúvio (80-70 a.C - 15 a.C.)

 De Architectura, livro 7, Capítulo V,  "A decadência da pintura mural (Afresco)"

Link: http://www.civil.ist.utl.pt/~hrua/Publica/Vitruvio.pdf
 https://pt.scribd.com/document/239669381/Tratado-de-Arquitetura-Vitruvio-Martins-Fontes-pdf


(1)Nos outros compartimentos, sejam eles de primavera, de outono ou de verão, e também dos átrios e nos peristilos, foram constituídas pelos antigos normas concretas de pintura a partir de determinadas realidades. Com efeito, a pintura apresenta-nos a imagem daquilo que é ou pode ser, tais como homens, edifícios, naves, bem como todas as coisas restantes de cujos corpos harmoniosos e distintos se retiram exemplo de figurada semelhança. Por isso, os antigos instituíram os princípios dos acabamentos imitaram primeiro as variedades e aplicações da placas de mármore e, depois, das várias distribuições das cornijas, molduras e bandas separadoras.
(2)Posteriormente, dedicaram-se a imitar também as figuras dos edifícios, as saliências proeminentes das colunas e dos frontões; em lugares ao ar livre, como êxedras, devido ao tamanho das paredes, desenharam frontes de cena segundo os gêneros trágico, cômico ou satírico. Nos passeios portificados, por causa dos espaços em profundidade, representaram variedades de paisagens, monstrando figurações com características de determinados locais: desse modo se pintam portos, promontórios, litorais, fontes, canais, templos, bosques, montes, rebanhos, pastores, assim como, em alguns lugares, grandes quadros de figuras representando imagens dos deuses o sequencias ordenadas das fábulas, como as guerras troianas ou as andanças de Ulisses através das paisagens, e outras coisas que, como essas, são produzidas pela natureza das coisas.
(3)Todavia, esses modelos que se retiravam de coisas reais são hoje considerados de mau gosto. Com efeito, nos estuques pintam-se mais monstros do que imagens determinadas de coisas concretam: pois ali se levantam caniços em lugar de colunas e em vez de frontões, varinhas estriadas com folhas ondeadas e enrolamentos, bem como candelabros que sustem imagens de edículas sobre cujos frontões surgem, a partir de raízes com volutas, tenras flores que apresentam estatuetas sentadas sem qualquer lógica. Isso sem falar dos caulículos que têm figurinhas que têm figurinhas partidas ao meio, umas com cabeças humanas, outras com cabeças de animais.
(4)Pois essas coisas não existem, nem se podem fazer, nem nunca existiram. Por isso , os novos gostos levaram a que maus juízes neglicenciassem a perfeição das artes. De que maneira, com efeito, pode um caniço aguentar verdadeiramente um teto, ou um candelabro suster os ornamentos de um frontão, ou como um caulículo tão fino e mole pode sustentar uma estatueta sentada, ou a partir de que raízes e caulículos podem criar-se seja flores, seja figurinhas divididas ao meio? E vendo os homens essas coisas falsas, não criticam, antes se deleitam, sem se interrogarem se algo nelas pode ou não ser real. E as mente obscurecidas por esses inconsistentes juízos não têm a capacidade de provar com autoridade e lógica de conveniência o que pode ser real. É que, de fato, não devem ser aprovadas as pinturas que não são semelhantes à realidade, nem, se são tornadas elegantes pela arte, delas se deve logo julgar favoravelmente, a não que se se apresentem determinadas razões justificativas aplicadas sem contradições.


W> Kayser

"Os grotescos de Rafael pareciam criar um domínio particular do livre jogo de fantasia. {...} Nós, porém, verificamos que , no tocante à essência do grotesco, não se trata de um domínio próprio, sem outros compromissos e um fantasiar totalmente livre(que não existe). O mundo do grotesco é o nosso mundo - e não o é. O horror, mesclado ao sorriso, tem seu fundamento justamente na experiência de que nosso mundo confiável e aparentemente arrimado numa ordem bem firme, se alheia sob a irrupção de poderes abismais, se desarticula nas juntas e nas formas e se dissolve em suas ordenações" O grotesco,  p. 40

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