Do
risco ao Riso
O
grotesco na performance Poéticas Urbanas
From Risks to Laughter
The grotesque in the performance Poéticas
Urbanas
Roustang Carrilho
Universidade de Brasília
Departamento de Pós Graduação em Artes
Cênicas
Resumo
O seguinte estudo tem por finalidade
elucidar os conceitos de Bakhtin sobre Rabelais da Imagem Grotesca do Corpo e do Baixo
Material e Corporal na performance
de rua Poéticas Urbanas, da Andaime Cia de Teatro. Consiste também na
observação de uma cena específica denominada Precipício, afim de mapear os elementos que afirmam esses conceitos
numa associação com transeuntes - mendigos. Para tanto recorro ao princípio
traçado por Kenia Dias do Corpo Excluído.
Palavras – Chave: Grotesco; Baixo Corporal; Imagem
Grotesca; Performance de Rua;
Poéticas Urbanas; Performer; Mendigo;
Corpo Excluído.
Abstract
The purpose of this study is to elucidate Bakhtin 's
concepts about Rabelais of the Grotesque
Image of the Body and the Low Material and Corporal in the
Poéticas Urbanas performance of the Andaime Cia de Teatro. And in the
observation of a specific scene called Precipice, to map the elements that
affirm these concepts in an association with passers – by/ beggars,
participants and above all modifying the work executed in the street. To that
end, I also refer to the principle outlined by Kenia Dias of the Excluded Body.
Keywords: Grotesque; Body Low; Grotesque Image; Street Performance;
Urban Poetics; Performer; Beggar; Body Excluded.
1
O
seguinte estudo é uma aproximação de pesquisa em realização no curso de pós
graduação em mestrado da Universidade de Brasília. A proposta em análise é
referente ao processo de direção que desenvolvo ao longo de sete anos do
espetáculo – performance Poéticas
Urbanas da Andaime Cia de teatro[1],
numa conexão com os conceitos da estética Grotesca.
Poéticas
Urbanas é um espetáculo de livre inspiração no livro “Entreaberta”[2],
escrito por Patrícia Del Rey. Dentre olhares solitários pela cidade e
questionamentos sobre a vida, e a relação dela com o ‘outro’, o livro da
Patrícia, escrito a partir das publicações em um Blog, revela uma atmosfera
urbana e caótica da relação dessa mulher, jovem, militante, pensadora, viva,
ela, e sua cidade. Os questionamentos, sobretudo, aqueles que abordam temas
como o Amor e o Afeto, nos levam a uma visão esvaziada das relações afetivas e
um distanciamento entre os corpos.
O espetáculo é
realizado na rua, e é composto por seis figuras femininas. O roteiro é composto
por momentos fixos, tanto de textos, quanto de ações conjuntas dessas mulheres,
mas também é desenhado de maneira que existam momentos de dispersão e interação
constantes com os transeuntes.
Das diversas vezes
em que foi realizado, o Poéticas Urbanas, por sua característica de abertura à
mudanças, sofreu intensas modificações. Todas essas mudanças são ocasionadas
pela experiência da cena e pela constante intervenção de outras personagens no
decorrer da apresentação. A partir dessa observação inicio esse estudo com a
seguinte questão:
O que fazer quando se está diante do
desconhecido prontamente a atacar?
Talvez essa seja a questão mais
preocupante ao se propor um exercício cênico/ performático em que o artista/ performer se encontra ao atuar em um
espaço urbano e público. O risco é sempre iminente.
A rua, que por sua característica de
espaço aberto e popular, manifesta diversas formas de pensamentos e ações,
também é o local da possível troca singular de relações, pois ela é ao mesmo
tempo palco e vida real.
Renato Cohen (2004), afirma que ela, a
performance, está diretamente ligada à live
art. É “uma forma de se ver arte, em que se procura uma aproximação
direta com a vida, em que se estimula o espontâneo , o natural, em detrimento
do elaborado, do ensaiado (2004, p. 38).” Ao aproximar o conceito de
performance ao sentido da vida, Cohen nos mostra um caminho alternativo em que
a arte se prolifera. A performance
busca o espaço alternativo como opção à usual caixa preta teatral, tendo em
vista que sua forma rígida, delimitada por luzes e cenários teatrais, reduz a
experimentação de novos horizontes.
Ao ir para a rua, para o espaço de
trânsito de diversas camadas sociais, a performance encontra uma ideia
potencial e estimulante, a interação. Essa ideia se aproxima definitivamente
dos conceitos carnavalescos da praça pública em Mikhail Bakhtin (2008)[3],
e desta forma entende-se que intervir no cotidiano do transeunte, é intervir
necessariamente no pensamento cotidiano do transeunte, e consequentemente intervir
na estrutura do cotidiano como um todo.
É na rua, no lugar onde a cultura não – oficial se estabeleceu desde as
formas carnavalescas Medievais[4],
e que ainda preserva suas características de relações transitórias daquele
tempo, que também está presente uma fricção de opostos entre a fatalidade do risco
e a fragilidade da condição humana, a vida. Dessa natureza de atritos da
interação surge o riso, elemento fundamental na dissolução do risco e da
possibilidade de fortalecimento dessas relações sociais.
O riso, seja ele cínico, divertido,
amedrontado, nervoso, triste, feliz, nasce nessa linha horizontal da camada
popular, no plano baixo das relações materiais e corporais. Como declara
Bakhtin:
Rebaixar consiste em aproximar da terra, entrar em comunhão
com a terra concebida como um princípio de absorção e, ao mesmo tempo, de
nascimento: quando se degrada, amortalha-se e semeia-se simultaneamente,
mata-se e dá-se a vida em seguida, mais e melhor. [...] O rebaixamento é a
transferência ao plano material e corporal [...] de tudo que é elevado,
espiritual, ideal e abstrato (2008, p.17 - 18).”
Essa característica de degradação
presente no âmbito da rua – lugar da afirmação de um estrato popular e baixo da
conjuntura social – está marcada pela ironia e consequentemente pelo riso, que é
dado por Bakhtin para os séculos XVII e XVIII como “uma espécie de castigo útil
que a sociedade usa para os seres inferiores e corrompidos.”[5]
Essa análise de uma cultura não – oficial, que marca o estudo
do riso por Bakhtin sobre Rabelais na Idade Media é atual na medida em que se distingue
“por seu radicalismo e sua liberdade excepcionais, por sua implacável lucidez.
(2008, p. 62)”
É importante salientar sobre a questão do
riso, onde estão presentes os fatores humanos em aproximação com o risco, que
ele existe por essa ótica do rebaixamento social. Esse perfil baixo da
sociedade, apresenta-se característico por diversas expressões singulares, seja
em imagens, comportamentos, cheiros, estruturas físicas, etc. E está delineado
por uma liberdade carnavalesca de caráter
alegre e festiva.
2
Ernst Gombrich (2012), em sua introdução
à História da Arte, nos alerta sobre as manifestações artísticas nas obras de
arte, tendo como princípio de análise a representação artística da forma ideal
e o valor que esta forma possui pela recepção.
No exemplo entre as pinturas de Picasso[6]
em que o autor nos alerta sobre a forma de representação da obra de arte, fica
evidenciado o fator da recepção da obra como relação primordial de comunicação entre
o artista e seu trabalho. “Somos todos propensos ao precipitado veredito de que
as coisas não se parecem com isso (Gombrich, 2012, p. 27).”
A Galinha
com seus pintos, pintura de 1942, é
sobremaneira o que a recepção tem como padrão avaliar como aquilo que é bom e
aceitável. É a representação artística que pertence à esfera do belo, do
harmônico, e que por sua vez se aproxima do que Bakhtin avalia em Rabelais como
um mundo oficial, onde se estabelece um padrão de relações aceitáveis, devido à
sua aparência e norma.
A relação familiar e afetiva definida por
uma forma afetuosa no desenho de uma mãe e seus filhotinhos é, nesse caso, o
reflexo da estrutura elevada e padronizada de um status social pré estabelecido
como superior. Esse status é definido a partir de um conceito idealizado pelo
coletivo social e difere portanto do que a imagem grotesca em Rabelais expõe.
No grotesco, a relação entre a imagem representada, e o que ela de
fato representa, entram em discordância, pois
as imagens grotescas conservam uma natureza original,
diferenciam-se claramente das imagens da vida cotidiana, preestabelecidas e
perfeitas. São imagens ambivalentes e contraditórias que parecem disformes,
monstruosas e horrendas, se consideradas do ponto de vista da estética [...] da
vida cotidiana preestabelecida e completa. (BAKHTIN, 2008, p.22)
Já em outra esfera de análise, o Galo Novo, pintura de 1938, em que
Picasso revela, sobretudo em traços grosseiros, a essência de um Galo em seu
auge de virilidade acústica, vemos que as características predominantes no
argumento do artista, circulam sobre a essência da vida e da relação que ela
tem com o rebaixamento do conceito de belo para uma noção superior de relação,
pautada em sentimentos vivos.
O galo é, em essência, a caricatura do
estilo agressivo. Esse traço violento exibido pelo artista, revela um incomodo
pontual no desenho da figura. Ela é grotesca na medida em que incomoda, tanto
por sua violência de traços grossos, ríspidos e fortemente marcados visualmente,
quanto por representar, partindo dessa análise de expressão dos traços, um
sentimento vivo de incômodo quando lembramos desse galo em seu ato natural de
ser irritante.
O fato é que tanto a Galinha, quanto o
Galo, que são necessariamente obras de valor inestimável, apresentam-se de
formas distintas no padrão social de relações de aceitação, e todavia estão
necessariamente vinculadas pelo teor artístico ao gosto peculiar do receptor. De
acordo com Gombrich, “temos o curioso hábito de pensar que a natureza deve
parecer-se sempre com as imagens a que nos acostumamos”, e provavelmente, essas
imagens pertencem à um padrão pré – definido como ideal, e não por nossa
experiência sobre o que elas realmente representam (2012, p. 27).
Essa análise está ligada ao que podemos
entender sobre a ideia da imagem Grotesca em Rabelais, de que se o Galo de
Picasso é por sua vez uma hiperbolização da forma, o exagero estético da
representação do real, ele pertence também à essa esfera da rua. O galo é a
crítica à forma idealizada da galinha e seus pintos. Ao mesmo tempo que ele
fere a beleza na sua representação e rebaixa o sublime quadro familiar da
galinha, sua força e expressão marcantes de vida ficam evidenciados. A imagem é
superada pela expressividade, e sentidos podem ser acessados a partir dela. Nojo,
asco, raiva, irritação, lembranças afetivas, etc, esses sentidos renascem no
receptor do Galo grotesco e afirmam o contexto baixo de uma experiência não – oficial, tão comuns à praça
pública.
3
Poéticas Urbanas é um espetáculo – performance de rua que tem em sua linha
de construção de imagens e ações, o discurso marcante da voz feminina e
sobretudo de corpos femininos. Esses corpos e vozes, longe de uma classificação
machista que eleva a mulher numa condição de fragilidade e delicadeza,
mostram-se veemente marcados por uma força que por vezes intimida.
A praça, a esquina, os monumentos, a
paisagem, são os cenários por onde mulheres marcantes transitam e se afirmam
enquanto corpos e mentes femininas do espaço urbano público a partir de ações
performáticas.
Durante a performance, esses corpos vão de encontro ao chão da rua várias vezes.
Essas etapas são entendidas pelo grupo como as transformações pelas quais elas
passam no trajeto pela cidade. Todas as etapas dessa descida ao chão são
processos que envolvem a torção do corpo, a inversão do estado sublime para o
estado da dor e desolação, e a busca pelo repouso como transformação das
atmosferas de cena.
O espetáculo Poéticas Urbanas tem
convivido durante todo o seu processo de criação e maturação com essa
aproximação conceitual de Bakhtin em Rabelais sobre riso. Por ser realizado na
rua está intimamente ligado a essa idéia corrompida e inferior do riso, pois é
na rua onde encontram-se as diversas camadas, ou planos de atuação da estrutura
social.
“Planos entrecruzam-se, sobrepõem-se, misturam-se,
entram em composição uns com os outros, atravessam-se” (LEPECKI, 2010, p. 14).
Desses planos, a rua configura o baixo material e corporal. Esse plano baixo,
envolve certamente uma gama de imagens e corpos misturados, sobrepostos com
certa inclinação para baixo.
Esses movimentos para baixo, dispersos nas formas e imagens
da alegria popular e do realismo grotesco, encontram-se novamente reunidos por
Rabelais, interpretados de maneira nova, fundidos em um movimento único,
dirigido para o fundo da terra e do corpo. (Bakhtin, 2008, p. 325)
A rua, como
espaço de encenação performática, é o lugar que abarca diversas camadas por sua
composição urbana e caótica. O espetáculo criado para a rua é diversificado na
medida em que encontra nesse lugar uma difusão de planos de atuação.
No processo de
atuação do Poéticas Urbanas, tornou-se hábito sempre que se retoma o ensaio, um
exercício constante de estabelecer-se na rua. Nenhuma etapa desse processo é
realizada senão na rua, senão em contato com o espaço urbano.
Alongamentos,
exercícios físicos para ativação corporal, dinâmicas de grupo para a re –
aproximação com a obra e o discurso, trabalho de aquecimento vocal, tudo é
exercido no contato direto com a rua. Esse contato é vivido por um número
abrangente de camadas, sejam elas sonoras, visuais, de cheiros e/ ou, de
contatos. Mas sobretudo, o que marca esse processo de atuação, é o contato com
o chão, com o rebaixamento do corpo em relação à cidade, ou, como diz Lepecki,
a terraplanagem.
A condição
primeira para a dança acontecer é a terraplanagem. Para que a dança possa se
dar, e, ao se dar, dar-se soberanamente, sem tropeços, interrupções ou
escorregões, seu chão tem de ser antes de mais nada um chão liso,
terraplanado, calcado e recalcado. (LEPECKI, 2010, p. 14)
Voltar ao chão,
perceber-se no concreto ou no asfalto, tem fator singular na apropriação que a
Andaime faz com o discurso pela performance. “É preciso martelar o concreto
todos os dias”[7], diz a
personagem que se encontra diante da fadiga e do cansaço da labuta. Esse plano, o do chão, é a
segurança que propicia a força desse discurso e sua difusão em diversas camadas
sociais. Terraplanar é se entender primeiro no perímetro urbano, baixo,
horizontal e complexo, para então multiplicar-se pelas camadas diagonais e
verticais da cidade.
No plano mais baixo dessa cadeia de
camadas, ou seja, no chão, encontra-se potencialmente o risco. A partir dessa
perspectiva direcionada ao chão da rua, percebe-se que esse corpo terraplanado
está diretamente ligado à estética do Realismo
Grotesco. Por estar nessa
ambivalência, que ora degrada, ora se recompõe e renasce, o corpo em contato
com esse chão urbano, transforma-se,
recria-se, e se inspira em direções diversas e algumas vezes perigosas – no sentido
do risco.
Diferente do espetáculo que é encenado
dentro da caixa preta, a performance na rua é determinada por acontecimentos
improváveis. Desde os pensamentos mais arriscados para atos físicos, como um
provável assalto ou o risco de machucar-se gravemente, até uma possível abordagem policial ou de
segurança que tente impedir a performance, tudo pode acontecer quando se propõe
um exercício cênico na rua.
A apropriação dessa rua portanto é
fundamental na realização da performance e entende-se que as personagens dessa
obra artística estão em toda parte. Conhecer esse aparato múltiplo que envolve
o ambiente da rua é dever da performer.
Esse também é o princípio de horizontalidade, de plano baixo, em que se busca
entender todo o movimento artístico externo às ações. Desde o contexto fechado
da criação artística, ou seja, a Andaime Cia de Teatro, até os elementos menos
e/ ou mais significantes presentes nesse espaço, o transeunte, o cão
vira-latas, o mendigo, o lixo, os ratos e baratas, etc, tudo pertencem ao
contexto da obra artística quando o palco se define na rua.
A idealização da forma no espaço urbano
público é totalmente difundida pela presença constante dos elementos que a
rebaixam enquanto significado social. O aglomerado das massas populares presente
na rua é distinto e foge necessariamente de uma idealização. Sua natureza é
difusa. É preciso conhecê-la, e para isso é preciso estar nela.
4
Das interações mais corriqueiras que a
Andaime Cia de Teatro têm vivido nesses 7 anos de experimentação da rua como
espaço de ocupação artística na realização do Poéticas Urbanas, frequentemente somos surpreendidos com a presença
marcante de moradores de rua.
Esses habitantes do espaço urbano público
são considerados, para nós realizadores da obra, como aqueles que têm a
propriedade daquele lugar, e entendemos que nesse caso, a rua é a sua própria
casa. Nesta perspectiva, o grupo, necessariamente entende que para esses
moradores de rua, somos tidos como visitas na sua casa.
Entendida essa relação de interação,
somos então arrebatados pela idéia de que o espectador do espaço urbano público
é também parte dessa obra artística, não só o transeunte, como também aquele
que vive e permanece em constante estado de sobrevivência nesse espaço.
Kenia Dias (2005), numa abordagem
política de pesquisa sobre a formação e constituição dessa classe tão presente
no contexto urbano das grandes cidades e sob um olhar voltado para o corpo
excluído, nos revela no primeiro capítulo de sua abordagem - “O contexto do
corpo excluído” - alguns aspectos desses moradores de rua e suas referências no
contexto da exclusão corporal.
Na ideia de se chegar ao ponto de ruptura
que leva esse corpo para o contexto excluído dos segmentos sociais, Kenia diz
que “o sentido de ruptura prevalece como um processo de desqualificação das
pessoas que não estão integradas no sistema societário. Elas são dissocializadas
pela condição da miséria” (DIAS, 2005, p. 5).
Nesse sentido, o contexto do corpo
excluído está diretamente ligado à ideia de rebaixamento, definida nos
conceitos da praça pública de Rabelais. Esta observação tem por característica,
reafirmar que este corpo pertence então à um contexto social de diferenças por
extremidades. Esse contexto está definido numa polaridade - de um lado temos os
que se classificam numa escala de superioridade sobre àqueles que, de outro
lado, estão classificados pela inferioridade - Se por este viés, o corpo
excluído é o corpo que condiz ao estado de miséria, classificado portanto pela
inferioridade, o seu oposto, o corpo aceito e qualificado, pertence à esfera do
socialmente elevado, ostentoso, superior.
O corpo excluído portanto pertence à rua.
Sua casa é o mesmo chão que as performers
arriscam a experimentação performática. Ora, se a proposta é ocupar o ambiente
urbano e público, nesse caso é necessária uma compreensão de que esse lugar é
residência de um corpo excluído. Sendo assim não se pode estabelecer regras
para esse espaço, ou somente fazê-la àquilo que pertence unicamente a si, nesse
caso o corpo.
Dessa constatação é inevitável que um
princípio de relação se estabeleça antes mesmo que ele venha a acontecer. Toda
intervenção que não ultrapasse o limite do corpo é possível e plausível. Entende-se
contudo que o mendigo é parte desse contexto, e que sua forma é alterada na medida
em que vive a rua numa constante interação.
A inversão de funções de determinadas partes do corpo é uma
rotina típica para as pessoas que moram e trabalham como pedintes nas ruas. As
alterações do esqueleto modificam não só o olhar o mundo, como também as
relações desse mundo, estabelecidas a partir desse olhar (Dias, 2005, p. 58)
O corpo excluído é transformado pela
relação diária em que vivencia a rua. “Não há nada perfeito nem completo, é a
quintessência da incompletude. Essa é precisamente a concepção grotesca do
corpo (Bakhtin, 2008, p. 23).”
No Poéticas Urbanas, a adaptação do corpo
segue os mesmos princípios dessa incompletude marcada no corpo excluído e
conceituada por Bakhtin. Nada é inteiro, belo e perfeito num ambiente definido
por múltiplos pedaços.
5
A partir da imagem a seguir, em que a performer Tatiana se encontra numa
situação dada que nomeamos de Precipício, farei um relato das ações seguintes
levando em consideração os conceitos do baixo material corporal e da imagem grotesca
em Rabelais, e das reverberações que essa situação, propicia enquanto reflexão
sobre o acontecimento estético – a performance.

Quando o lugar confortável e certo da
vida tranqüila e altiva se vê em cheque numa linha que divide efetivamente, de
um lado o status equilibrado e seguro, e de outro a queda desesperada e
incerta, essa linha portanto é dada como a instabilidade. É instável qualquer
decisão seguinte.
Na imagem, Tatiana está de salto alto
sobre esta linha instável, nesse caso, um muro.[8]
Abaixo dela está uma escadaria. Se houver uma queda, a performer irá se machucar certamente.
A cena, é o quinto momento da performance
e tem seu início marcado por um pedido de atenção e foco do transeunte por
Tatiana. Interessante salientar que esse pedido por foco é contrário ao que
esse transeunte está por ver.
Paralelo a essa ideia de precipício
proposta, o conceito de queda se amplia pelo aspecto que o espaço urbano
desenha com dura realidade. Em queda, ou na linha da instabilidade encontram-se
diversos elementos pela rua. Para Kenia (2005, p. 9) “a rua representa tanto
uma possibilidade de realização, quanto uma afirmação da derrota relativa à
perspectiva de vida.” Essa instabilidade, em que a performer ousa aventurar-se, está marcada por exemplo na vida do
morador de rua. Sua natureza social é uma linha de insegurança e instabilidade
constantes.
A sequência da cena é uma queda de
diversos materiais que caem de sua roupa. A queda desses elementos assinalam a
idéia de que a perspectiva da cena é para baixo, afirmando o conceito de chão
mencionado anteriormente.
Moedas, baton, cigarros e isqueiro, são
elementos que, acoplados de forma estratégica ao figurino, surpreendem o
passante quando caem e se espalham pelo chão. A partir daí, dá-se de forma gradual
o desespero de Tatiana que, na linha da instabilidade, busca veemente a
recuperação de seus elementos. Sua motivação inicial baseia-se exclusivamente
na recuperação desses objetos tão caros à ela.
As ações beiram à caricatura do desespero
e aproximam-se da imagem grotesca do exagero, e por consequência despertam a
comicidade. Para Bakhtin (2008, p. 266) “o cômico fundamenta-se sobre o
contraste entre os sentimentos de satisfação e de insatisfação.” Essa
característica cômica nas ações da performer
pode ser gerada pela recuperação de algum desses elementos, ocasionando um
sentimento de plena satisfação, bem como, pelo fato de sua dificuldade em
caminhar pela linha da instabilidade,
de insatisfação por não conseguir recuperá-los.
O riso se dá primeiro pela forma que o
desespero desenha em um corpo
desequilibrado. A satisfação da recuperação é um alivio também para o
transeunte, que sorri. Há também em outra análise o riso covarde, constatado
pela possibilidade da situação acabar em uma queda trágica.
São vários os estigmas vividos pela
atriz. Na queda das moedas por exemplo, tanto ela quanto o transeunte se vêem
em estado de alerta, dado que para ela, a relação com o dinheiro é a mesma que
para o mendigo, ou seja, pertencem à natureza do desespero e da sobrevivência.
Em muitas ocasiões mendigos entram em cena e recuperam todas as moedas do chão.
Esta é uma característica solidária, pois em todas as ocasiões o mendigo
devolve o dinheiro para a performer.
Mais uma vez é constatado o sentimento de satisfação. Do baixo, renasce uma pura
e simples qualidade altiva, e dele, o riso, de compaixão.
Além disso, são muitos os casos em que os
transeuntes oferecem ajuda a Tatiana. São conversas, o apoio de uma mão, a
ajuda para acender o cigarro. Diante do inevitável desespero proposto pela
performance, o corpo da atriz se funde tanto em sentimentos quanto em outros
corpos, pelo toque, pela palavra, pela solidariedade. Da natureza torta e
monstruosa que a caricatura propõe, esse corpo em movimento vai se reerguendo e
se reestruturando.
O corpo grotesco é um corpo em movimento. Ele jamais está
pronto nem acabado: está sempre em estado de construção, de criação, e ele
mesmo constrói outro corpo; alem disso, esse corpo absorve o mundo e é
absorvido por ele.” (Bakhtin, 2008, p. 277)
Essa cena, que tem uma duração aproximada
de cinco minutos, é um exemplo de transformação corporal determinante. A ideia de
elevação e rebaixamento se desenha de forma antagônica no corpo, pois parte do
princípio do meio termo, ou seja, da linha da instabilidade. Cair é doloroso,
mas também pode significar o fim do desespero. Saciar-se na elevação e
sublimação da dor é positivo na medida em que não se idealiza o que pode vir
depois.
6
No coletivo de informações que se
difundem por esse ambiente complexo e diverso de camadas, ou seja, na rua, o gosto e a fruição estética,
são diluídos em uma gama de possibilidades, das quais destaco três:
* A
manifestação: seja ela de aceitação, ou não – aceitação;
* O contato
instintivo e espontâneo, do toque, do olhar, e do verbo: é aqui que reside o
risco.
* E por ultimo, e
não menos importante, o Riso: proveniente de um conceito baixo de relações.
Diante dessas três possibilidades
observadas pela execução da performance na rua, voltemos à pergunta inicial:
O que fazer quando se está diante do
desconhecido prontamente a atacar?
Já vimos que a rua, é o lugar em que a
ação artística repercute em diversos níveis de interesse e reações dos
receptores transeuntes. O que fazer então quando em uma dessas relações, a
reação se torna agressiva e perigosa?
Talvez a melhor resposta para essa
pergunta esteja exatamente no fato de que é necessário compreender, antes de se
realizar um ato artístico na rua, que ela é permeada por diferentes níveis de
relações, e que essas relações
baseiam-se em um nível baixo como contexto. Se pudermos estabelecer um
discurso que engloba e aproxima a camada popular do ato performático,
certamente estaremos nos aproximando também de uma linguagem que não pertence à
padrões pré concebidos. É preciso abrir-se para o fato de que a interação
também é provocada pela imagem, e que nessa atmosfera popular, o grotesco ainda
permanece como referência de provocações cômicas, irônicas. A camada popular
pertence a característica do riso, que para Bakhtin “degrada e materializa
(2008, p. 17).”
O contato então, seja ele físico ou não,
estará nessa perspectiva, fundamentado no conhecimento e apropriação que as performers têm sobre todos esses
elementos que constituem a atmosfera da rua. Quanto maior o seu grau de
aproximação com essa linguagem e conhecimento sobre suas origens, mais eficaz é
o seu discurso e menos riscos poderá correr provavelmente.
Bibliografia
BAKHTIN, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e
no Renascimento : O contexto de François Rabelais. São Paulo: Universidade de
Brasília, 2008.
COHEN, Renato. Performance como Linguagem. São Paulo:
Perspectiva, 2002.
DEL REY, Patrícia. Entreaberta: (sf.) ato de
entreabrir; descobrimento do céu em um
dia enevoado. Brasília, 2011.
DIAS, Kenia. Da rua à cena: trilhas de um processo
criativo. Tese (Mestrado em Artes) – Departamento de Artes, Universidade de
Brasília. Brasília, 2005.
GOMBRICH, E.H. A história da Arte. Rio de Janeiro: LTC
– Livros Técnicos e Científicos Editora LTDA. 2012.
LEPECKI, André. Planos de Composição. In
GREINER, Christine; SANTO, Cristina Espírito; SOBRAL, Sonia. Criações e
Conexões: Cartografias Rumos Itaú Cultural Dança – 2009-2010. São Paulo: Itaú
Cultural, 2010. (p. 13- 20) Disponível em : https://issuu.com/itaucultural/docs/rumos_danca_criacoeseconexoes
[1] A Andaime Cia de Teatro existe a onze anos no
Distrito Federal e sua pesquisa tem
relação direta com a exploração dos espaços públicos e urbanos no sentido de
ocupação e transformação das áreas subutilizadas das cidades em prol de
movimentos artísticos vinculados à performance. Para conhecer melhor o trabalho
do grupo visite o site: www.andaimeciadeteatro.com.br
ou as redes sociais da Companhia em: Facebook/Andaime Cia de Teatro e
Instagram/Andaime Cia de Teatro
dia
enevoado. Brasília, 2011.
[3] BAKHTIN, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e
no Renascimento : O contexto de François Rabelais. São Paulo: Universidade de
Brasília, 2008.
[4] A rua aqui se caracteriza fortemente nos conceitos
da praça pública em Rabelais, se
pensarmos que é nela onde nos defrontamos com esse universo não – oficial da
cultura popular. É na rua onde se realiza o maior de todos os ritos de
celebração, o carnaval, caracterizado principalmente pela liberdade. A
liberdade nesse contexto é uma profusão de possibilidades: De ser; Dizer; E
fazer. Desse contexto surge a ironia e a critica aos padrões sociais
estabelecidos. A forma artística aqui representada é concreta, mesmo que
provisória, da própria vida (BAKHTIN, 2008. p. 5, 6 e 7).
[5] Numa análise social, o riso não pode definir uma
sociedade exemplar, altiva e soberana. Essa característica do riso não pode
configurar uma verdade sobre o mundo e os homens, e por isso ela pertence aos
seres inferiores e rebaixados. (BAKHTIN, 2008, p. 57 – 58)
[6] Galinha com Pintos, 1941-2/ Galo Novo, 1938.
(GOMBRICH, 2012. p. 26 – 27)
[7] Trecho extraído da performance.
[8] Cada dia de apresentação do Poéticas Urbanas se dá
em um determinado local. A cena do precipício é de escolha da performer. Esta escolha está subordinada
ao risco que esse lugar provoca nela, ou seja, a queda. Essa queda não
necessariamente está subentendida por um lugar com altura, pois a queda também
está numa idealização que ela estimule no ambiente apresentado. A busca pela
elevação e desequilíbrio pode se
dar por estímulos outros como buracos, desenhos pelo chão, ou simplesmente por
qualquer outro signo visual e/ ou emotivo que a leve a dúvida por seguir
adiante ou deixar-se cair.
Nao consigo postar na plataforma da Revista Dramaturgias.
ResponderExcluirE não sei porque as fotos não carregaram...