Análise literária de Gargantua, de François Rabelais
Gargantua
é um romance complexo. Com efeito, Rabelais recorre a uma gama de gêneros
textuais, distribuídos em cinquenta e oitos capítulos, para narrar as aventuras
da personagem que dá nome a sua obra. Há capítulos com conteúdo filosófico (IX
e X), poético (II, LIV e LVII) retórico (XIX, XXXI, XL, XLVI e L) e, a maioria
deles, narrativo das aventuras do protagonista. Pode-se identificar quatro partes
bem distintas na narrativa: os dois primeiros capítulos apresentam ao leitor
uma síntese do método e do estilo que Rabelais desenvolverá ao longo do texto,
ora constituindo-o em prosa, ora em poesia. Embora seja uma obra de ficção, com
acentuado apelo cômico, Rabelais a compõe como um tratado, mostrando grande
erudição, com inúmeras referências a autores clássicos e coetâneos, fatos
históricos, sítios geográficos e conhecimentos científicos, não raro,
distorcendo o significado de fatos e ideias para aumentar a comicidade da
narrativa. Os Capítulos III a XXIV narram o nascimento e os processos de formação
e educação de Gargantua; os Capítulos XXV a LI abordam a guerra travada entre
Grandgousier e Picrocolo, na qual Gargantua exerce papel decisivo no desfecho
do conflito e na reestruturação política e social de seu país no pós-guerra; e,
por fim, os Capítulos LII a LVIII apresentam um projeto de sociedade utópica,
estruturada em torno de uma abadia, que sucederá à sociedade remanescente do
conflito.
A singularidade do enredo reside na
figura excêntrica de Gargantua, um gigante, filho de um casal de gigantes que governa
um reino imaginário. Essa personagem colossal assegura a Rabelais a licença
literária para compor uma narrativa pautada nos excessos. Tudo associado a
Gargantua é hiperbólico. Os, hábitos, as ações e a linguagem non sense da personagem são os elementos
constitutivos da comicidade da obra.
No tocante à linguagem, Rabelais evoca
os padrões de linguagem consagrados pelos comediantes gregos e romanos. Nesse
sentido, enquanto a tragédia aborda temas que permeiam grandes questões da
existência humana, usando uma linguagem sublime, que dignifica deuses e heróis
em suas peripécias, nas vicissitudes da vida, a comédia explora os costumes das
classes populares, os conflitos e exposições dos aspectos mais degradados da
cultura, do comportamento e da vida de homens e mulheres comuns, privados de
mecanismos de censura interna capazes de impor qualquer moderação no uso da
linguagem. Falam o que vem à cabeça, expressando-se com as palavras mais chulas,
inclusive sobre as situações comumente envoltas por interditos sociais. Gargantua segue essa tradição da comedia
clássica, usando uma linguagem desabrida, centrada em descrever escatologias
passíveis de causar repugnâncias nos espíritos não iniciados. Segundo Geir
Campos, no texto de apresentação da obra, Rabelais usa palavras semifeias, que não
chegam a ser palavrões, "seriam palavrões a meio mastro, impropérios de
salão ou quase."
As comédias costumam ser críticas
mordazes a pessoas, instituições, costumes ou ideias. Configuram, nesse sentido,
uma representação simbólica do escárnio nutrido pelo homem do povo, como
sujeito desprovido de importância social, política e econômica em sua
individualidade, contra pessoas, instituições ou valores representativos das
classes dominantes de sua época. Será vã, entretanto, eventuais tentativas de o
leitor descobrir qual o alvo predileto da crítica de Rabelais. Transitam no
enredo governantes, religiosos, teólogos e pessoas comuns, mas não há no texto
elementos para sustentar que estes sejam objeto da crítica. O final apologético
da obra em defesa da paz, da ordem e da prosperidade em uma comunidade ideal,
deixa transparecer que Rabelais é um homem pio, com grande apreço pela religião
e por seus prelados, como era de fato, devido a sua formação religiosa, de
médico caridoso e de frade franciscano.
Igualmente, não há evidências
históricas de que os tipos caricatos de Gargantua
possam ser associados a governantes da época do autor. Parece haver no texto
uma crítica velada a governantes predispostos a declarar a guerra por motivos
fúteis, com resultados desastrosos para si e para seu povo, mas, caso haja, tal
crítica torna-se quase imperceptível em meio às diversas situações inverossímeis
do conflito, que afastam a possibilidade de conexão com a realidade histórica
do Velho Mundo do século XVI. A obra é puramente ficcional, composta com o
propósito de entreter e não induzir o leitor à reflexão, pois como adverte Rabelais:
"Antes risos que prantos descrever // Sendo certo que rir é próprio do
homem."
Pode-se observar sensível crescimento
espiritual de Gargantua à medida que sua formação intelectual se adensa, a
ponto de a linguagem non sense e as
condutas histriônicas tão marcantes da personagem se esvaírem ao longo do texto,
dando lugar a um conjunto de habilidades físicas, sociais, políticas e intelectuais
que fazem de Gargantua uma liderança magnânima, dotada de recursos retóricos e
de sabedoria política, enfim, um verdadeiro estadista. Desse modo, Rabelais
parece tecer apologias a educação como prática essencial para transformação do indivíduo
e da sociedade, pois, na comunidade ideal remanescente do pós-guerra, homens e
mulheres eram "tão nobremente instruídos que não havia aquele nem aquela que
não soubesse ler, escrever, cantar, toca instrumentos harmoniosos, falar cinco
e seis línguas ou nelas compor tanto em carme como em oração solta."
(Capítulo LVII)
Por todos esses aspectos, Gargantua é um romance que integra o
panteão das grandes obras da literatura universal.
Edvaldo Carvalho
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