terça-feira, 23 de outubro de 2018


Análise literária de Gargantua, de François Rabelais
           Gargantua é um romance complexo. Com efeito, Rabelais recorre a uma gama de gêneros textuais, distribuídos em cinquenta e oitos capítulos, para narrar as aventuras da personagem que dá nome a sua obra. Há capítulos com conteúdo filosófico (IX e X), poético (II, LIV e LVII) retórico (XIX, XXXI, XL, XLVI e L) e, a maioria deles, narrativo das aventuras do protagonista. Pode-se identificar quatro partes bem distintas na narrativa: os dois primeiros capítulos apresentam ao leitor uma síntese do método e do estilo que Rabelais desenvolverá ao longo do texto, ora constituindo-o em prosa, ora em poesia. Embora seja uma obra de ficção, com acentuado apelo cômico, Rabelais a compõe como um tratado, mostrando grande erudição, com inúmeras referências a autores clássicos e coetâneos, fatos históricos, sítios geográficos e conhecimentos científicos, não raro, distorcendo o significado de fatos e ideias para aumentar a comicidade da narrativa. Os Capítulos III a XXIV narram o nascimento e os processos de formação e educação de Gargantua; os Capítulos XXV a LI abordam a guerra travada entre Grandgousier e Picrocolo, na qual Gargantua exerce papel decisivo no desfecho do conflito e na reestruturação política e social de seu país no pós-guerra; e, por fim, os Capítulos LII a LVIII apresentam um projeto de sociedade utópica, estruturada em torno de uma abadia, que sucederá à sociedade remanescente do conflito.
           A singularidade do enredo reside na figura excêntrica de Gargantua, um gigante, filho de um casal de gigantes que governa um reino imaginário. Essa personagem colossal assegura a Rabelais a licença literária para compor uma narrativa pautada nos excessos. Tudo associado a Gargantua é hiperbólico. Os, hábitos, as ações e a linguagem non sense da personagem são os elementos constitutivos da comicidade da obra.
           No tocante à linguagem, Rabelais evoca os padrões de linguagem consagrados pelos comediantes gregos e romanos. Nesse sentido, enquanto a tragédia aborda temas que permeiam grandes questões da existência humana, usando uma linguagem sublime, que dignifica deuses e heróis em suas peripécias, nas vicissitudes da vida, a comédia explora os costumes das classes populares, os conflitos e exposições dos aspectos mais degradados da cultura, do comportamento e da vida de homens e mulheres comuns, privados de mecanismos de censura interna capazes de impor qualquer moderação no uso da linguagem. Falam o que vem à cabeça, expressando-se com as palavras mais chulas, inclusive sobre as situações comumente envoltas por interditos sociais. Gargantua segue essa tradição da comedia clássica, usando uma linguagem desabrida, centrada em descrever escatologias passíveis de causar repugnâncias nos espíritos não iniciados. Segundo Geir Campos, no texto de apresentação da obra, Rabelais usa palavras semifeias, que não chegam a ser palavrões, "seriam palavrões a meio mastro, impropérios de salão ou quase."
           As comédias costumam ser críticas mordazes a pessoas, instituições, costumes ou ideias. Configuram, nesse sentido, uma representação simbólica do escárnio nutrido pelo homem do povo, como sujeito desprovido de importância social, política e econômica em sua individualidade, contra pessoas, instituições ou valores representativos das classes dominantes de sua época. Será vã, entretanto, eventuais tentativas de o leitor descobrir qual o alvo predileto da crítica de Rabelais. Transitam no enredo governantes, religiosos, teólogos e pessoas comuns, mas não há no texto elementos para sustentar que estes sejam objeto da crítica. O final apologético da obra em defesa da paz, da ordem e da prosperidade em uma comunidade ideal, deixa transparecer que Rabelais é um homem pio, com grande apreço pela religião e por seus prelados, como era de fato, devido a sua formação religiosa, de médico caridoso e de frade franciscano.
           Igualmente, não há evidências históricas de que os tipos caricatos de Gargantua possam ser associados a governantes da época do autor. Parece haver no texto uma crítica velada a governantes predispostos a declarar a guerra por motivos fúteis, com resultados desastrosos para si e para seu povo, mas, caso haja, tal crítica torna-se quase imperceptível em meio às diversas situações inverossímeis do conflito, que afastam a possibilidade de conexão com a realidade histórica do Velho Mundo do século XVI. A obra é puramente ficcional, composta com o propósito de entreter e não induzir o leitor à reflexão, pois como adverte Rabelais: "Antes risos que prantos descrever // Sendo certo que rir é próprio do homem."
           Pode-se observar sensível crescimento espiritual de Gargantua à medida que sua formação intelectual se adensa, a ponto de a linguagem non sense e as condutas histriônicas tão marcantes da personagem se esvaírem ao longo do texto, dando lugar a um conjunto de habilidades físicas, sociais, políticas e intelectuais que fazem de Gargantua uma liderança magnânima, dotada de recursos retóricos e de sabedoria política, enfim, um verdadeiro estadista. Desse modo, Rabelais parece tecer apologias a educação como prática essencial para transformação do indivíduo e da sociedade, pois, na comunidade ideal remanescente do pós-guerra, homens e mulheres eram "tão nobremente instruídos que não havia aquele nem aquela que não soubesse ler, escrever, cantar, toca instrumentos harmoniosos, falar cinco e seis línguas ou nelas compor tanto em carme como em oração solta." (Capítulo LVII)
           Por todos esses aspectos, Gargantua é um romance que integra o panteão das grandes obras da literatura universal.

Edvaldo Carvalho

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