(Artigo em construção)
Do Risco ao Riso
O que fazer quando se está diante do
desconhecido prontamente a atacar? Talvez essa seja a questão mais preocupante
ao se propor um exercício cênico em que o artista/ performer se encontra ao atuar em um espaço urbano e público. O
risco é sempre iminente.
A rua, que por sua característica de
espaço aberto e popular, manifesta diversas formas de pensamentos e ações,
também é o local da possível troca singular de relações, pois ela é ao mesmo
tempo palco e vida real. A performance,
nesse espaço alternativo à usual caixa preta teatral, está inteiramente ligada
à idéia de que intervir no cotidiano do transeunte, é intervir necessariamente
no pensamento cotidiano do transeunte, e consequentemente, intervir na
estrutura do cotidiano como um todo.
E é ali, na rua, no lugar onde a cultura não – oficial se estabeleceu desde as
formas carnavalescas Medievais[1],
e que ainda preserva suas características de relações transitórias, que também
está presente uma fricção de opostos entre o risco e o humano. Dessa natureza
de atritos da interação surge o riso, elemento fundamental na composição de
relações sociais.
O riso, seja ele cínico, divertido,
amedrontado, e até mesmo, como popularmente se fala, ‘de nervoso’, nasce nessa
linha horizontal da camada popular. Essa característica irônica presente no
âmbito da rua – lugar da afirmação de um estrato popular e baixo da conjuntura
social - tem sua aproximação com a atitute literária do século XVIII, em que o
riso é dado como “(...) uma espécie de castigo útil que a sociedade usa para os
seres inferiores e corrompidos.”[2]
Ainda hoje podemos ouvir reverberações dessa premissa traçada por Mikhail
Bakhtin no século dezessete, também no contexto popular quando se diz “Sou pobre, mas sou feliz”
“Foi graças a essa existência extra –
oficial que a cultura do riso se distinguiu por seu radicalismo e sua liberdade
excepcionais, por sua implacável lucidez.”[3]
É importante salientar que a questão do riso, onde está presente o humano e o
risco, como bem define Mikhail Bakhtin existe por essa ótica do rebaixamento
social. Esse perfil das sociedades, apresenta-se característico por diversas
expressões singulares, seja em imagens, comportamentos, cheiros, estrutura. E
todas essas ‘presenças’ são vivenciadas pelas performers do Poéticas, e
absorvidas por elas no que tange a expressão do desenho corporal.
Antes de falarmos sobre essas expressões e
imagens que são geradas na dramaturgia do Poéticas
Urbanas, gostaria de elucidar, o que
Ernst Gombrich 2012 nos alerta sobre as manifestações artísticas nas obras de
arte, tendo como princípio de análise a representação artística da forma ideal.
No exemplo entre as pinturas de Picasso[4]
em que o autor nos alerta sobre a forma de representação da obra de arte, fica
evidenciado o fator da recepção da obra como relação primordial de comunicação
entre o artista e seu trabalho. A galinha com seus pintos, pintura de 1942
(figura 1), é sobremaneira o que a recepção tem como padrão, avaliar como o que
é bom e aceitável, aquilo que pertence à esfera do belo, do harmônico, e que
por sua vez se aproxima do que Baktin avalia em Rabelais como um mundo
official, onde padrões de relação são aceitáveis por sua aparência e norma.
(Figura 1)
A relação familiar e afetiva definida por
uma forma afetuosa no desenho de uma mãe e seus filhotinhos, é nesse caso o
reflexo da estrutura aceita e padronizada como característica de um status
social pré estabelecido como superior.
(Figura
2)
Já em outra esfera de análise, o Galo
Novo, pintura de 1938 (Figura 2), em que Picasso revela, sobretudo em traços
grosseiros, a essência de um Galo em seu auge de virilidade acústica, vemos que
as características predominantes no argumento do artista, circulam sobre a
essência da vida e da relação que ela tem com o rebaixamento do conceito de
belo para uma noção superior de relação, pautada em sentimentos vivos.
O galo é, em essência, a caricatura do
estilo agressivo. Esse traço violento exibido pelo artista, revela um incomodo
pontual no desenho da figura. Ela é grotesca na medida em que incomoda, tanto
por sua violência de traços - grossos, ríspidos e fortemente marcados visualmente
- quanto por representar, partindo dessa análise de expressão dos traços, um
sentimento vivo de incômodo quando lembramos desse galo em seu ato natural de
ser irritante.
O fato é que tanto a Galinha, quanto o
Galo, que são necessariamente obras de valor inestimável, apresentam-se de
formas distintas no padrão social de relações de aceitação, e todavia estão
necessariamente vinculadas pelo teor artístico ao gosto peculiar do receptor.
Essa análise está ligada ao que podemos entender sobre a idéia do Grotesco em
Rabelais, de que se o Galo é por sua vez a hiperbolização da forma, o exagero
estético da representação do real, ele pertence também à essa esfera da rua, do
contexto popular, da relação entre a obra, o receptor, e da existência do
convívio popular.
Voltando à questão da fricção entre as
relações da performance na rua com o transeunte, mencionadas inicialmente,
podemos então destacar que as personagens, dessa obra artística na rua, estão
em toda parte. Desde o contexto fechado da criação artística, ou seja, a
Andaime Cia de Teatro, até os elementos menos e/ ou mais significantes
presentes na rua, o transeunte, o cão vira-latas, o mendigo, etc, todos
pertencem ao contexto da obra artística.
A idealização da forma no espaço urbano
público é totalmente difundido pela presença constante dos elementos que a
rebaixam enquanto significado social. O aglomerado das massas populares presentes
na rua são distintos e fogem necessariamente de uma idealização. Sua natureza é
difusa.
No coletivo de informações que se
difundem na rua, o gosto e a fruição estética, são diluídos em diversas
possibilidades, das quais destaco três na vivência de apresentações do Poéticas:
* A
manifestação, seja ela a da aceitação, ou, a da não – aceitação;
* O contato
instintivo e espontâneo, do toque, do olhar, e do verbo;
* E por ultimo, e
não menos importante, o Riso.
OBS: A partir daqui quero
abordar as questões da Imagem Grotesca do Corpo e do Rebaixamento Corporal em
Rabelais, pela ótica de Bakhtin, fazendo relação com questões sociais marginais
de mendigos que freqüentam as performances da Andaime. A idéia é buscar nas
imagens desses moradores de rua, que tenho no banco de dados da companhia, e
analisar como se dá o processo de transformação do corpo das atrizes, no
decorrer dos anos de apresentação pelo contato com o transeunte – mendigo,
tanto pelo riso, quanto pela agressão.
Diante dessas três possibilidades
observadas pela execução da performance na rua, voltemos à pergunta inicial:
O que fazer quando se está diante do
desconhecido prontamente a atacar?
Já vimos que a rua, é o lugar em que a
ação artística repercute em diversos níveis de interesse e reações dos
receptores. O que fazer então quando em uma dessas relações, a reação se torna
agressiva e perigosa?
Para essa resposta, e a partir de uma
análise sobre o rebaixamento corporal e também no que diz respeito à imagem
Grotesca do Corpo em Rabelais, vamos procurar provocações de relações já
obtidas pelas performers com
moradores de rua – mendigos, e com o conceito de Corpo excluído.[5]
Das interações mais corriqueiras que a
Andaime Cia de Teatro têm vivido nesses 7 anos de experimentação da rua como
espaço de ocupação artística, na realização do Poéticas Urbanas, frequentemente somos surpreendidos com a presença
marcante de moradores de rua.
Esses habitantes do espaço urbano
público, são considerados, para nós realizadores da obra, como aqueles que têm
a propriedade daquele lugar, e entendemos que nesse caso, a rua é a sua própria
casa. Nesta perspectiva, o grupo, necessariamente entende que para esses
moradores de rua, somos tidos como visitas na sua casa.
Entendida essa relação de interação,
somos então arrebatados pela idéia de que o espectador do espaço urbano público
é também parte dessa obra artística, não só pelo transeunte, como também por
aquele que vive e permanece em constante estado de vivência desse espaço, neste
caso os moradores de rua. Kenia Dias (2005), numa abordagem política de
pesquisa sobre a formação e constituição dessa classe tão presente no contexto
urbano das grandes cidades, nos revela no primeiro capítulo de sua abordagem -
“O contexto do corpo excluído” - alguns aspectos desses moradores de rua e suas
referências excludentes. Na idéia de se chegar ao ponto de ruptura que leva
esse corpo para o contexto excluído dos segmentos sociais, Kenia diz que “… o
sentido de ruptura prevalece como um processo de desqualificação das pessoas
que não estão integradas no sistema societário. Elas são dissocializadas pela
condição da miséria…” (DIAS, 2005, p. 5).
O contexto do corpo excluído, portanto,
está diretamente ligado à idéia de rebaixamento, definida nos conceitos da
praça pública de Rabelais. Esta observação tem por característica, reafirmar
que este corpo pertence então à um contexto social de diferenças por
extremidades. Se por este viés, o corpo excluído é o corpo que condiz ao estado
de miséria, o oposto, o corpo aceito e qualificado, pertence à esfera do
socialmente elevado, correto.
[1] A rua
aqui se caracteriza fortemente aos conceitos de Rabelais, se pensarmos que é
nela onde nos defrontamos com esse universo não – oficial da cultura popular.
Há, certamente, nesse caso, uma aproximação entre o espetáculo Poéticas Urbanas
e a característica essencial das manifestações carnavalescas em Rabelais, pois,
a forma artística aqui representada é concreta, mesmo que provisória, da
própria vida. (BAKHTIN, 2008. p. 6 -7).
[2] BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o
contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São
Paulo/Brasília: Hucitec/Editora Universidade de Brasília, 2008.
[3]BAKHTIN, Mikhail. 2008. p. 62.
[4] Galinha com Pintos, 1941-2/ Galo Novo, 1938.
(GOMBRICH, 2012. p. 26 – 27)
[5] DIAS, Kenia. Da rua à cena: trilhas de um processo
criativo. Tese
(Mestrado em Artes) – Departamento de Artes, Universidade de Brasília.
Brasília, 2005.


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